Introdução: mitos e realidades históricas
Na história da humanidade, eventos como a Inquisição e a caça às bruxas são frequentemente envoltos em equívocos e mitos. É dito que esses eventos produziram milhões de vítimas, que a caça às bruxas foi o resultado de uma sociedade que odiava mulheres, que as bruxas eram queimadas na fogueira, que esses acontecimentos provam que a religião é inerentemente violenta, etc.
Esta exploração busca lançar luz sobre esses temas complexos, examinando-os de maneira precisa e contextualizada.
A Inquisição: investigação e religião
Em primeiro lugar, é crucial esclarecer o que significa "inquisição". A palavra latina "inquisitio" remete simplesmente a um "inquérito" ou "investigação formal". Ao longo da história, a maioria das "inquisições" não tinha nada a ver com crença religiosa. Geralmente, eram conduzidas por razões políticas, econômicas, legais e várias outras.
Os inquéritos religiosos se tornaram comuns a partir do século XI, com o objetivo de verificar a qualidade dos padres em relação à instrução, honestidade e celibato. Surgiu também a questão de saber se eles estavam ensinando a doutrina cristã tradicional ou suas próprias interpretações. Aqueles que ensinavam doutrinas equivocadas deliberadamente eram chamados de "hereges". Do século XI ao XIII, várias heresias surgiram, muitas delas propagadas por grupos favorecidos pelo desenvolvimento do comércio.
Preocupados com o crescimento de heresias como o catarismo e o valdensianismo, o Papa Lúcio III ordenou, em 1184, que bispos procurassem hereges e os entregassem às autoridades seculares. Em 1233, o Papa Gregório IX estabeleceu inquisidores papais em áreas onde as heresias estavam se espalhando rapidamente. Em 1252, o Papa Inocêncio IV permitiu o uso da tortura pelos inquisidores.
É importante destacar que mesmo quando essas inquisições estavam em seu auge de atividade, havia absolvições, e as penalidades variavam desde retratações públicas e jejum até multas, prisões e confisco de bens. A notória punição da queima na fogueira era raramente aplicada. Naquela época, ainda não existia uma "inquisição" no sentido de um escritório ou organização centralizada conduzindo investigações. No entanto, os procedimentos irregulares começaram a se padronizar.
A Inquisição: missão de recuperação, não de assassinato
É crucial ressaltar que o foco principal dos inquisidores não era o assassinato de supostos hereges, mas sim obter retratações. A ideia de que a Inquisição era composta por psicopatas sedentos de sangue não se sustenta. A missão inquisitorial compreendia que a erradicação da heresia era mais bem alcançada através da reabilitação dos acusados. Mandar um herege para a fogueira era considerado um fracasso. Aqueles que se retratavam não eram queimados, ao passo que aqueles que se recusavam a fazê-lo geralmente enfrentavam essa terrível punição.
As penalidades impostas variavam, principalmente, de penitências como insígnias de vergonha, peregrinações obrigatórias e devoções específicas. Em casos mais raros, eram aplicados açoitamentos públicos e prisões. O uso da tortura era permitido, mas seu derramamento de sangue era proibido durante as sessões de tortura. É importante compreender que não havia uma organização centralizada conduzindo todas as investigações.
A Inquisição renovada, perseguições e complexidades políticas e religiosas
Durante os séculos XIV e XV, a frequência das inquisições diminuiu. Entretanto, com o advento do protestantismo no século XVI, o Papa Paulo III reviveu a Inquisição em 1542, centralizando-a em Roma, criando a conhecida "Inquisição Romana", com o objetivo de perseguir os protestantes. Agora, a Inquisição podia perseguir "hereges" em qualquer lugar do mundo, mas é importante destacar que sua perseguição se limitava aos ditos "hereges", não se estendendo a indivíduos não-cristãos, como muitas vezes se supõe. A Inquisição tinha autoridade apenas sobre os cristãos. Nunca houve uma inquisição protestante.
Em um caso notável, Giordano Bruno foi queimado na fogueira, erroneamente considerado um mártir da ciência. Suas verdadeiras razões de condenação eram sua adesão a crenças gnósticas e panteístas, que contradiziam doutrinas centrais do Cristianismo.
Na Espanha, a Inquisição também recebeu autorização para julgar judeus convertidos suspeitos de cripto-judaísmo, com o apoio do Papa Pio II, em resposta a um pedido do rei Henrique IV de Castela. Em 1478, o Papa Sisto IV estabeleceu a Inquisição Espanhola a pedido dos monarcas Fernando e Isabel. Essa Inquisição perdurou por 350 anos e ganhou a reputação de ser a mais cruel.
Segundo as análises de David Bentley Hart, a Inquisição não era meramente resultado do fervor religioso, mas sim uma consequência da centralização política e da utilização da igreja para fins políticos. Ele argumenta que o Papa Sisto IV autorizou a primeira Inquisição sob pressão dos monarcas espanhóis que buscavam fortalecer a unidade nacional e o poder de Castela e Aragão após a expulsão muçulmana da Andaluzia. Hart observa que a violência e a corrupção iniciais da Inquisição levaram o Papa Sisto a tentar intervir em suas operações, denunciando a destruição de vidas inocentes e o confisco de bens em 1482. No entanto, as pressões políticas continuaram e resultaram na nomeação do Grande Inquisidor Tomás de Torquemada.
Durante o século seguinte, a Inquisição esteve frequentemente envolvida na complexa política de "pureza de sangue", na qual ninguém, incluindo membros do clero, estava imune. Mesmo dentro da Espanha, houve resistência ao fervor racial espanhol, especialmente por Santo Inácio de Loyola, fundador dos Jesuítas. No entanto, as intervenções papais muitas vezes foram necessárias para aliviar esses conflitos raciais.
Nathan Johnstone apresenta a ideia de que, de acordo com a tese de Robert I. Moore, a perseguição às heresias não se limitava ao fanatismo religioso descontrolado, mas era uma manifestação do poder de classificação e organização. Essa perseguição envolveu a categorização e redefinição do cenário religioso como uma atividade acadêmica e burocrática. Em última análise, Moore argumenta que a perseguição e a caça às heresias não eram simples excessos do desenvolvimento do Estado, mas uma parte intrínseca desse processo.
Johnstone observa que a tese de Moore, naturalmente, recebeu críticas e não é sua intenção sugerir que ela seja a única explicação para a história da heresia na Idade Média. No entanto, ele destaca que os historiadores reconhecem a importância das mudanças sociais, políticas, burocráticas e educacionais que Moore identificou como fundamentais para o surgimento da perseguição às heresias. Ele também ressalta que poucos contestariam a ideia de que a presença da religião, mesmo o seu fortalecimento, não é suficiente para uma explicação do que ocorreu.
Nesse contexto, não encontramos o auto-totalitarismo religioso afirmado por ateus militantes como Christopher Hitchens ou Michael Onfray, nem a visão idealizada de Hitchens sobre o ceticismo do senso comum do camponês. Também não vemos os literalistas fanáticos de Harris levados à violência por simples encontros com textos religiosos. Da mesma forma, não podemos considerar a Alta Idade Média apenas como uma continuação da supressão do pensamento livre pela Igreja.
Em vez disso, a complexidade desse período requer uma análise que inclua diversos elementos para ser compreendida adequadamente. Se a visão de Moore estiver correta, a Igreja se tornou proativamente envolvida na perseguição à medida que se integrou e foi moldada por uma nova forma de governança que se baseava na centralização do poder e na criação de mecanismos para definir, excluir e reprimir, emergindo organicamente de uma nova visão de administração.
Caça às bruxas: origem e complexidade
A caça às bruxas, por sua vez, não foi um produto da Idade Média, mas do Renascimento e da Idade Moderna. Ao contrário do mito que acredita que fez milhões de vítimas, estudos históricos recentes sugerem que o número de pessoas executadas varia entre 30 e 60 mil.
Durante a Idade Média, prevalecia a ideia de líderes como Carlos Magno, que condenou a perseguição de bruxos e demonstrou ceticismo em relação à bruxaria. No entanto, no século XV, teólogos, inquisidores e papas começaram a argumentar a favor da existência das bruxas. Em 1484, o Papa Inocêncio VIII, por meio da bula "Summis desiderantes", permitiu a perseguição das bruxas, embora a extensão dessa bula à igreja como um todo e a quantidade de líderes eclesiásticos que realmente a viam como uma ameaça continuem sendo temas de debate.
Com o advento da Reforma Protestante no século XVI, muitos abandonaram a Igreja Católica. Embora o catolicismo romano se baseasse em um magistério, o luteranismo, o calvinismo e o anglicanismo afirmavam outras fontes de autoridade divina. No entanto, a maioria dos reformadores concordava que as bruxas representavam uma ameaça.
Todas as quatro principais vertentes cristãs ocidentais - catolicismo romano, luteranismo, calvinismo e anglicanismo - perseguiram bruxas em algum grau. A caça às bruxas era mais rara entre as igrejas ortodoxas orientais. Entretanto, cabe destacar que a maioria das perseguições às bruxas não foi conduzida por igrejas, mas sim por líderes seculares. Com exceção de algumas regiões, líderes religiosos e temporais geralmente eram diferentes e, frequentemente, eram os líderes temporais que conduziam a caça às bruxas por suas próprias motivações e interesses. Apesar disso, a influência de líderes religiosos, que diziam que a bruxaria era uma grande ameaça, também foi uma condição necessária para esse fenômeno.
Poucas caças às bruxas foram realizadas pela Inquisição. Na Espanha, sede da Inquisição Espanhola, houve relativamente poucos julgamentos de bruxas. Muitas das chamadas "execuções" foram, na verdade, linchamentos realizados pela população.
No entanto, é importante ressaltar que a caça às bruxas não foi generalizada em toda a Europa e América. Embora tenha ocorrido ao longo de vários séculos, a caça atingiu seu auge principalmente no noroeste da Europa entre 1550 e 1700. Em muitas regiões, simplesmente não houve caça às bruxas.
A grande maioria das execuções ocorreu no Sacro Império Romano Germânico, uma federação composta por cerca de 300 governos autônomos. A caça às bruxas foi endêmica em apenas alguns desses governos, o que destaca a importância das diferenças culturais e políticas como determinantes para a caça às bruxas, em vez de apenas a religião.
Os historiadores têm dedicado esforços para compreender por que a caça às bruxas se manifestou de maneira tão diversa em diferentes regiões. Diversos fatores desempenharam papéis cruciais nesse fenômeno. Entre eles, destacam-se a natureza dos sistemas políticos e sua centralização, a autonomia das autoridades locais, tensões decorrentes de conflitos como guerras, crises econômicas e até mesmo escassez de alimentos, além de incertezas quanto à conformidade religiosa.
Brian A. Pavlac, historiador renomado, enfatiza a necessidade de explorar essas especificidades culturais e políticas que influenciaram a caça às bruxas em algumas áreas e não em outras. Simplesmente atribuir o fenômeno ao "sobrenaturalismo" ou à "credulidade" revela-se insuficiente para uma análise precisa.
Nathan Johnstone, outro estudioso, observa que a caça às bruxas não era difundida em toda a Europa e América. De fato, durante os séculos XVI e XVII, a maioria dos habitantes comuns dessas regiões provavelmente nunca presenciou um julgamento de bruxa. As chances de uma mulher comum ser acusada de feitiçaria e enfrentar execução eram mínimas.
Portanto, é fundamental reconhecer que a caça às bruxas não foi um fenômeno homogêneo, mas sim um evento que teve suas raízes em fatores culturais, políticos e sociais variados, que afetaram diferentes regiões de maneiras distintas. O fato de que diversos outros fatores estiveram em jogo, torna a simples fé insuficiente para explicar a totalidade desse fenômeno.
Quanto aos métodos de execução das supostas bruxas, é importante destacar que, ao contrário da crença generalizada, a queima na fogueira era uma prática aplicada apenas a uma minoria delas. Em algumas regiões, inclusive, essa forma de execução era expressamente proibida, por ser considerada muito cruel. O método de execução mais amplamente empregado era o enforcamento.
Um exemplo notório desse sombrio período ocorreu em Massachusetts, ainda uma colônia britânica na época, onde se desenrolou o caso mais famoso e perturbador de caça às bruxas na América. Nesse episódio, 20 pessoas acabaram sendo executadas. A legislação britânica, que governava a colônia, proibia a utilização da queima na fogueira como método de execução, portanto, nesse caso, as pessoas condenadas foram enforcadas.
A Inquisição como contrapeso à caça às bruxas
É também importante considerar que a Inquisição desempenhou um papel notável ao atuar como um contrapeso à caça às bruxas, graças aos seus padrões de prova mais rigorosos. O historiador e cientista da religião Jeffrey Burton Russell destaca que, nos raros casos em que os acusados recorreram de suas sentenças a autoridades superiores, como bispos, a própria Inquisição, universidades e até o Parlement de Paris (a suprema corte francesa), muitas condenações foram anuladas. Estudos estatísticos recentes sugerem que as Inquisições, de fato, desempenharam um papel de freio na mania das bruxas.
A caça às bruxas: motivação não era ódio às mulheres
Embora a maioria das vítimas da caça às bruxas fosse composta por mulheres, variando entre 67% e 75%, é relevante destacar que muitos homens também foram acusados de bruxaria e enfrentaram a pena de morte em algumas regiões, chegando até a constituir a maioria das vítimas em determinados lugares. Além disso, é importante salientar que, durante esse período, muitas mulheres desempenharam diferentes papéis no processo de caça às bruxas, incluindo acusações, testemunhos, e até mesmo funções como examinadoras ou fornecedoras de alimentos e agentes penitenciárias.
É essencial compreender que a ideia de que a caça às bruxas foi motivada por um ódio generalizado às mulheres é contestada por alguns estudiosos, como Martin van Creveld. Eles argumentam que os caçadores de bruxas acreditavam sinceramente na existência da bruxaria e na sua prática mais frequente por mulheres.
Esse contexto levanta uma questão intrigante, já que os contemporâneos da época sentiam desconforto diante do fato de a maioria dos acusados ser do sexo feminino. A explicação dada pelos autores da época para isso era procurada na própria natureza da mulher, visto que acreditava-se que as mulheres eram mais propensas à malícia, menos racionais e decididas, tornando-as alvos mais fáceis para a sedução demoníaca, conforme se mencionava: "depois de uma breve escaramuça". As autoras que abordaram o assunto concordavam com os companheiros do sexo masculino. Nas palavras de uma delas, 'por serem mais frágeis, elas eram seduzidas com mais facilidade'.
Os autores do famoso manual de caça às bruxas, o "Malleus Maleficarum", argumentavam que a palavra "feminino" derivava de "fe-minus", ou seja, "menos fé". Curiosamente, apesar dessas crenças, eles ainda dedicaram dez páginas à discussão sobre bruxos do sexo masculino.
Para uma comparação moderna, observamos que tanto homens quanto mulheres são capazes de cometer assassinatos, e muitos o fazem. No entanto, mais de 80% dos condenados por assassinato são homens, enquanto em outros crimes, como roubo e desfalque, a proporção entre os dois sexos é quase igual. Isso nos leva a buscar explicações nas características inatas dos homens, como os níveis mais altos de testosterona, que estão associados a comportamentos mais agressivos.
Em resumo, não é necessariamente verdade que aqueles que lidavam com as bruxas tinham um ódio às mulheres, da mesma forma que não podemos afirmar que a sociedade atual odeia os homens simplesmente porque a maioria dos criminosos condenados por assassinato são do sexo masculino. Eles estavam, na verdade, tentando compreender e explicar um fenômeno social que consideravam desconcertante, assim como fazem os criminologistas, sociólogos e psicólogos atualmente.
Conclusão: tragédia e reflexão
É importante reconhecer que na caça às bruxas, diversos fatores estavam em jogo, indo além da mera influência da fé cristã. Autoridades seculares frequentemente perseguiram aquelas que eram rotuladas como "bruxas" por razões que se alinhavam com seus próprios interesses e motivações individuais.
Independentemente disso, é relevante observar que os cristãos, como todos os seres humanos, estão sujeitos a imperfeições e falhas. No entanto, isso está em consonância com a teologia cristã, que ensina que todos são passíveis de cometer ações equivocadas. Importante ressaltar que essas ações não estão em conformidade com a mensagem central do Evangelho, que promove valores de amor, compaixão e redenção.
Assim, ao avaliar os episódios sombrios da Inquisição e da caça às bruxas, é essencial distinguir entre as ações humanas falíveis e a mensagem fundamental do Cristianismo, que busca inspirar a bondade e a virtude em seus seguidores.
Em última análise, é imperativo reconhecer que a Inquisição e a caça às bruxas tiveram um impacto devastador, resultando em milhares de vítimas. Embora cristãos estivessem envolvidos nesses eventos, é fundamental ressaltar que os números de vítimas e outros aspectos relacionados a essas instituições e episódios são frequentemente superestimados por alguns militantes ateus e feministas.
Entretanto, independentemente de números e estatísticas, cada vida perdida representou uma tragédia, e esses tristes episódios da história do Cristianismo não refletem o caráter benigno e virtuoso da mensagem original de Jesus Cristo.
Referências
BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do cristianismo. Curitiba: Editora Fundamento, 2012.
CREVELD, Martin Van. Sexo privilegiado: o fim do mito da fragilidade feminina. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001.
JOHNSTONE, Nathan. The new atheism, myth, and history: The black legends of contemporary anti-religion. Springer, 2018.
KAMEN, Henry. The Spanish Inquisition: a historical revision. Yale University Press, 2014.
PAVLAC, Brian A. Common Errors about Witch Hunts. In: Departamento de História do King's College. Disponível em: <https://departments.kings.edu/womens_history/witch/werror.html>. Acesso em: 20 set. 2023.
RUSSELL, Jeffrey Burton. Exposing myths about Christianity: A guide to answering 145 viral lies and legends. InterVarsity Press, 2012.

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