domingo, 29 de outubro de 2023

O Espiritismo e seus erros científicos


Em A Gênese, Kardec diz:

"Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará."

Esse texto é tomado pelos espíritas como prova de que o Espiritismo é racional é uma fé raciocinada, porém um exame mais rigoroso dele revela cenários bem diferentes. Vou desenvolver quatro críticas apontando implicações problemáticas deste texto para a própria doutrina espírita.


Dependência da Ciência

O texto sugere que o espiritismo está à mercê da ciência, o que levanta sérias preocupações. Se o ensino dos espíritos é supérfluo e sujeito a correções com base nas descobertas científicas, isso levanta a questão da utilidade do próprio espiritismo. Esse texto enfraquece a própria base da doutrina, tornando o ensino dos espíritos quase redundante. Deveríamos nos perguntar por que deveríamos recorrer a comunicações espirituais se a ciência é mais confiável e sólida em sua busca pela verdade. Essa dependência da ciência retira a autonomia do espiritismo e mina sua credibilidade.

Em primeiro lugar, a ciência é um método que se baseia na observação, experimentação e análise crítica para adquirir conhecimento. Ela se adapta e evolui à medida que novas descobertas são feitas, constantemente refinando nossas compreensões sobre o mundo. Se o Espiritismo precisa continuamente se ajustar às novas descobertas científicas, isso levanta a questão de por que alguém deveria recorrer a comunicações espirituais. A ciência oferece um sistema sólido e autoajustável para a busca da verdade, enquanto as comunicações espirituais parecem frágeis em comparação, tornando a doutrina espírita quase dispensável em termos de sua utilidade para buscar conhecimento.

Além disso, a dependência da ciência também desafia a autonomia e a credibilidade do Espiritismo. Se as comunicações espirituais estão constantemente à mercê das descobertas científicas, isso sugere que a doutrina não possui uma base sólida e autônoma de ensinamentos espirituais. Isso coloca em dúvida a validade do próprio Espiritismo, já que, em última instância, ele parece não ter nada a oferecer além do que a ciência já oferece de maneira mais confiável.

Em resumo, a dependência do Espiritismo em relação à ciência mina sua relevância e utilidade, pois sugere que as comunicações espirituais são dispensáveis e supérfluas diante de um método científico mais robusto e confiável para buscar conhecimento. Isso lança dúvidas sobre a necessidade e a credibilidade do Espiritismo como uma doutrina espiritual.

Os espíritas podem ter várias maneiras de responder a essa crítica:

1) Livre-arbítrio dos Espíritos: Os espíritas podem argumentar que, embora os Espíritos superiores tenham alcançado um alto nível de conhecimento, eles ainda têm o livre-arbítrio, o que significa que podem escolher como se comunicar e o que revelar. Eles podem cometer erros ao transmitir mensagens, mas isso não compromete necessariamente seu conhecimento geral.

Em resposta, podemos observar que a ideia de que os Espíritos superiores possuem livre-arbítrio não nega o fato de que eles são considerados seres de elevada sabedoria e conhecimento. Se esses Espíritos cometem erros que podem ser refutados cientificamente, isso sugere que seu conhecimento não é tão abrangente quanto se acredita. Além disso, se eles são capazes de escolher conscientemente cometer erros, isso coloca em dúvida sua intenção benevolente ao transmitir informações importantes, pois nesse caso eles estariam conscientemente usando seu livre arbítrio para transmitir informações equivocadas (mentindo)

2) Evolução constante: Os espíritas podem afirmar que a doutrina espírita é um sistema em evolução, e as mensagens dos Espíritos podem se adaptar conforme a humanidade avança em seu conhecimento científico. Isso não nega a sabedoria dos Espíritos superiores, mas sugere uma abordagem mais flexível à interpretação das mensagens.

Porém, embora a doutrina espírita possa ser vista como um sistema em evolução, a questão é por que os Espíritos superiores, com sua suposta compreensão avançada, cometeriam erros que precisam ser corrigidos ao longo do tempo. Se eles possuem conhecimentos superiores, deveriam ser capazes de transmitir informações precisas desde o início, sem a necessidade de ajustes constantes.

3) Compreensão limitada: Espíritas podem argumentar que a compreensão humana é limitada e que, embora a ciência possa refutar certas afirmações espíritas, isso não invalida a totalidade da doutrina. Os Espíritos podem possuir conhecimentos mais profundos que nossa capacidade de compreensão atual, e, portanto, discordâncias pontuais não invalidam sua autoridade espiritual.

Mas argumentar que nossa compreensão é limitada não justifica o fato de os Espíritos superiores cometerem erros científicos. Se esses Espíritos têm uma compreensão superior, eles deveriam ser capazes de transmitir conhecimentos que superem nossas limitações. Caso contrário, a afirmação de que eles são "superiores" em conhecimento carece de fundamento.

4) Mistério Divino: Alguns espíritas podem considerar que os Espíritos superiores possuem conhecimento superior, mas Deus permite que haja espaço para questionamento e aprendizado na Terra. As refutações científicas podem ser parte de um plano divino mais amplo para a evolução espiritual.

Mas a ideia de que Deus permite refutações científicas como parte de um plano divino para a evolução espiritual não resolve o problema central. Se o Espiritismo é de fato uma revelação divina, como afirmado por Allan Kardec, então os Espíritos superiores deveriam ser capazes de fornecer conhecimentos sólidos e muito mais avançados que nossa ciência, advinda de espíritos terrestres tão inferiores a eles em conhecimento, em vez de se sujeitarem a refutações científicas. Isso levanta dúvidas sobre a origem divina da doutrina espírita.


Espíritos Superiores e Conhecimento

A ideia de que espíritos superiores podem estar sujeitos a refutações científicas é desconcertante. Supõe-se que esses espíritos tenham alcançado um nível superior de sabedoria e conhecimento nas esferas espirituais, mas, de acordo com o texto, estão propensos a cometer erros que podem ser refutados por nossa ciência. Isso entra em conflito direto com a noção de que esses seres devem ser superiores em sua compreensão do mundo e das questões humanas.

Isso contradiz o ensino espírita de outras partes da Codificação, principalmente O Livro dos Espíritos, que ensina que:

"Quanto mais se aproximam da perfeição, tanto mais sabem. Se são Espíritos superiores, sabem muito. Os Espíritos inferiores são mais ou menos ignorantes acerca de tudo."

E que espíritos superiores "reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade", enquanto espíritos puros demonstram "superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras ordens."

Além disso, ele atribui justamente a esses espíritos a autoria e a supervisão da suposta Terceira Revelação e da Codificação Espírita. O Evangelho Segundo o Espiritismo diz:

"O Espiritismo vem cumprir, nos tempos preditos, o que o Cristo anunciou e preparar a realização das coisas futuras. Ele é, pois, obra do Cristo, que preside, conforme igualmente o anunciou, à regeneração que se opera e prepara o reino de Deus na Terra" (o grifo é meu)

Cristo, na concepção espírita, é um espírito puro. Se o Espiritismo fosse obra dele, deveria demonstrar um conhecimento científico muito superior, não passível de ser refutado por nossa ciência.

Em A Gênese, é dito o seguinte:

"O Espiritismo realiza todas as promessas do Cristo a respeito do Consolador anunciado. Ora, como é o Espírito de Verdade que preside ao grande movimento da regeneração, a promessa da sua vinda se acha por essa forma cumprida, porque, de fato, é ele o verdadeiro Consolador".

Em O Livro dos Médiuns, o suposto espírito Chateaubriand diz:

"O próprio Cristo preside aos trabalhos de toda sorte que se acham em via de execução para vos abrirem a era de renovação e de aperfeiçoamento que os vossos guias espirituais vos predizem"

Em Obras Póstumas, Kardec diz:

"A proteção desse espírito [Espírito da Verdade], do qual estava longe de supor a superioridade, com efeito, jamais me faltou. Sua solicitude, e a dos bons espíritos sob as suas ordens, se estende sobre todas as circunstâncias de minha vida"

Se espíritos evoluídos são mesmo tão inteligentes e detentores de conhecimentos superiores aos nossos, é estranho que nós, com nossa ciência, possamos refutar a doutrina que é obra deles.

Se esse é o caso, o mais sensato a se concluir é que é o Espiritismo não resulta do trabalho de espíritos superiores.

A isso, espíritas podem dar as seguintes respostas:

1) Livres-arbítrios dos Espíritos: Espíritas podem argumentar que mesmo espíritos superiores possuem livre-arbítrio e podem escolher como se comunicar ou quais informações revelar. Portanto, a possibilidade de erros pode estar relacionada à liberdade de escolha dos espíritos.

Mas se espíritos superiores têm livre-arbítrio, ainda assim, poderiam escolher transmitir informações cientificamente precisas e inquestionáveis, especialmente se o objetivo é o bem da humanidade, como o Espiritismo alega ser.

2) Adaptação às capacidades humanas: Espíritas podem afirmar que os espíritos adaptam suas mensagens ao nível de compreensão da humanidade em determinada época. Portanto, informações científicas podem ter sido simplificadas para serem compreendidas na época de Allan Kardec.

A isso, respondo que se espíritos superiores têm a capacidade de adaptar suas mensagens, isso não deveria resultar em erros científicos, já que poderiam adaptá-los para que fossem corretos dentro do entendimento humano da época.

3) Teste da Moralidade: Espíritas podem argumentar que o principal propósito do Espiritismo é promover valores morais e éticos, e não o conhecimento científico. Portanto, qualquer erro científico é irrelevante em comparação com a mensagem moral.

Porém, isso levanta a questão de por que espíritos superiores, que se supõe estarem interessados na evolução moral da humanidade, não corrigiriam erros científicos, já que isso prejudicaria a credibilidade da doutrina como um todo.

4) Interpretação humana: Espíritas podem alegar que erros ou contradições estão relacionados à interpretação humana das mensagens dos espíritos. Ou seja, as mensagens podem ter sido distorcidas ou mal interpretadas por médiuns ou estudiosos.

Mas se espíritos superiores estão cientes da possibilidade de má interpretação, deveriam oferecer mensagens mais claras e inequívocas para evitar equívocos.


Falta de Rigor e Desonestidade

O maior problema com a abordagem apresentada é que ela pode ser interpretada como desonesta e pouco rigorosa. O texto de Kardec levanta preocupações quanto à falta de rigor e à possibilidade de desonestidade na doutrina espírita. A ideia de que a doutrina pode ser constantemente modificada para se adequar às descobertas científicas enfraquece sua credibilidade. Em vez de enfrentar de maneira honesta e crítica as supostas revelações espirituais que geraram erros, a doutrina simplesmente se adapta a eles. Isso cria uma brecha que permite a atribuição arbitrária de qualquer obra a uma suposta revelação superior, independentemente de sua qualidade ou precisão. Essa falta de um processo crítico de avaliação levanta questões fundamentais sobre a integridade da doutrina e sua capacidade de resistir à análise escrutinosa.

Um exemplo de uma obra que um espírita não consideraria como fruto de revelação espiritual é um romance de ficção científica, como "1984", de George Orwell, que descreve um futuro distópico e totalitário. No entanto, usando o texto de Kardec como base, alguém poderia argumentar que a doutrina espírita poderia ser aplicada para considerar essa obra como tendo origens espirituais, assim como poderia ser feito também a qualquer outra obra. Vamos explorar como essa argumentação poderia ocorrer:

Passo 1: Identificação de erros ou contradições na obra

Primeiramente, alguém procuraria por elementos na obra que poderiam ser considerados erros ou contradições, como previsões científicas inexatas ou aspectos que não se alinham com o conhecimento atual.

Passo 2: Alegação de modificação à luz da ciência

Usando o argumento do texto de Kardec, essa pessoa poderia afirmar que a obra não é imune a revisões e adaptações. Se a ciência refutar alguns elementos da história, a obra poderia ser modificada para se adequar à ciência, de forma a manter a suposta autoria espiritual intacta.

Passo 3: Suposta revelação espiritual adaptável

Com base no texto de Kardec, a argumentação poderia sugerir que a obra "1984" pode ter sido inspirada por espíritos superiores que, apesar de seu vasto conhecimento espiritual, estavam limitados pelo contexto terreno em que se comunicaram. Portanto, eles poderiam ter previsto um futuro distópico com imprecisões científicas. Eles seriam, então, dignos de crédito, mesmo que a ciência contradiga algumas ou muitas de suas visões.

Esse exemplo ilustra como o texto de Kardec, quando interpretado dessa maneira, poderia ser aplicado para atribuir origens espirituais a qualquer obra. Isso destaca a potencial fragilidade do argumento apresentado no texto de Kardec, que permite uma interpretação flexível e adaptação da doutrina diante de críticas baseadas na ciência.

Agora vou explorar uma possível resposta dos espíritas:

1) O propósito do Espiritismo é evolutivo: os espíritas podem argumentar que o principal propósito da doutrina espírita é o crescimento espiritual e a evolução moral dos seres humanos, e não necessariamente a apresentação de conhecimentos científicos imutáveis. Eles podem afirmar que as mensagens dos Espíritos superiores são destinadas a orientar as pessoas em questões éticas e morais, e não em questões científicas.

Em resposta a isso, pode ser dito o seguinte: Enquanto o crescimento espiritual e moral pode ser um objetivo central da doutrina espírita, isso não anula as afirmações de conhecimento e sabedoria superiores dos Espíritos. Se a doutrina espírita afirma que esses Espíritos são superiores em conhecimento, então seus ensinamentos científicos deveriam ser igualmente superiores. A falta de rigor e a possibilidade de desonestidade na interpretação de suas mensagens científicas ainda levantam questões sobre a integridade e a credibilidade da doutrina.

Além disso, a falta de critérios rígidos para aferir a qualidade e precisão das mensagens espirituais cria um ambiente em que qualquer afirmação pode ser justificada como tendo origens espirituais, sem um mecanismo confiável para distinguir a verdade da ficção.

Essa refutação destaca que, embora o crescimento espiritual possa ser um objetivo válido, isso não elimina a necessidade de rigor e honestidade na interpretação das comunicações espirituais, especialmente quando se alega que tais mensagens são de origem superior.


Falta de Confiabilidade em Questões Espirituais

Se aceitamos que as revelações dos espíritos superiores podem conter erros em questões científicas, isso levanta a questão lógica de por que esses mesmos espíritos não estariam suscetíveis a erros em questões espirituais. Se eles podem cometer equívocos ao transmitir informações científicas, não há motivo para acreditar que suas comunicações sobre assuntos espirituais sejam infalíveis.

Além disso, essa crítica questiona a natureza dos espíritos superiores. Se eles não podem fornecer informações científicas precisas, como podemos confiar em sua autoridade em assuntos metafísicos e espirituais? Afinal, a suposição é que esses espíritos têm um conhecimento avançado das esferas espirituais, mas se demonstram falibilidade em outros campos, isso levanta sérias dúvidas sobre sua competência em temas transcendentes.

Refutação de Possíveis Respostas Espíritas:

1) Diferença de Conhecimento: Uma resposta comum dos espíritas seria argumentar que os espíritos superiores têm um conhecimento avançado nas esferas espirituais, mas não necessariamente nas questões terrenas. No entanto, essa resposta ignora a contradição inerente à ideia de que espíritos superiores podem cometer erros em qualquer área.

2) Livre-arbítrio dos Médiuns: Outra resposta poderia ser que os erros resultam do uso inadequado dos médiuns, que podem influenciar a comunicação. No entanto, isso ainda não aborda a questão da confiabilidade das comunicações espirituais, pois implica que a falibilidade reside nos humanos envolvidos na comunicação e não nos espíritos em si.

3) Teste e Aperfeiçoamento Espiritual: Alguns espíritas podem argumentar que os erros são oportunidades de aprendizado e aprimoramento para os espíritos superiores. No entanto, isso não resolve o problema da confiabilidade das mensagens espirituais, pois as pessoas que buscam orientação espiritual esperam informações precisas e confiáveis.

Em última análise, a crítica levanta uma questão profunda sobre a credibilidade das comunicações espirituais no espiritismo. A falibilidade dos espíritos superiores em questões científicas sugere que sua autoridade em questões espirituais também deve ser questionada, o que coloca em dúvida a base fundamental da doutrina.


Conclusão

Em suma, a análise crítica do texto de Allan Kardec apresentada neste trabalho levanta questões substanciais sobre as bases do Espiritismo e a interpretação de suas doutrinas. As críticas apontadas destacam desafios significativos para a credibilidade da doutrina espírita, particularmente em relação à relação entre espíritos superiores, conhecimento e a dependência da ciência.

A dependência do Espiritismo em relação à ciência suscita preocupações quanto à autonomia e utilidade da doutrina. Se as comunicações espirituais podem ser constantemente ajustadas com base em descobertas científicas, isso questiona a necessidade de recorrer a essas comunicações em primeiro lugar. A ciência oferece um método sólido e autoajustável para buscar conhecimento, o que torna o ensino dos espíritos quase redundante.

Além disso, a falta de rigor na interpretação das mensagens espirituais e a possibilidade de desonestidade na adaptação de ensinamentos às descobertas científicas levantam questões sobre a integridade da doutrina e sua capacidade de resistir a análises críticas.

A falta de confiabilidade em questões científicas por parte dos espíritos superiores também coloca em dúvida sua autoridade em questões espirituais, pois a doutrina pressupõe que esses seres têm um conhecimento avançado em ambas as esferas.

Encerrando este texto, é válido destacar que as críticas aqui apresentadas não buscam apenas questionar o Espiritismo, mas também realçar a importância de se avaliar as bases epistemológicas e espirituais de qualquer sistema de crenças. O Cristianismo, ao oferecer uma abordagem fundamentada em princípios sólidos e séculos de tradição, proporciona uma alternativa que tem resistido ao teste do tempo e continua a inspirar milhões de pessoas em todo o mundo. Suas escrituras sagradas, como a Bíblia, têm sido alvo de profundos estudos e debates, contribuindo para o desenvolvimento da teologia e da filosofia. O Espiritismo não é uma fé raciocinada, o Cristianismo, sim.

sábado, 28 de outubro de 2023

O Cristianismo dignificou as mulheres



No panorama atual, é comum encontrarmos a percepção de que o Cristianismo, ao longo de sua história, tenha sido inerentemente anti-mulher, limitando o papel e as liberdades das mulheres. No entanto, este texto tem como objetivo desafiar essa visão predominante, explorando evidências que destacam o impacto positivo do Cristianismo na vida das mulheres e a contribuição significativa que essa fé teve para seu progresso ao longo dos séculos. Ao examinarmos a história e os ensinamentos cristãos de maneira mais detalhada, revelam-se narrativas menos conhecidas que mostram um contexto mais complexo, onde o Cristianismo desempenhou um papel importante na promoção da dignidade, igualdade e direitos das mulheres.

Há evidências de que mulheres eram maioria na igreja primitiva. O crítico pagão Celso criticou o cristianismo porque era uma religião que atraía mulheres. Alguns outros fatos deixam ainda mais claro o valor da mulher no cristianismo: 

1) Tanto o homem quanto a mulher foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1:27);

2) O testemunho de uma mulher era considerado indigno de confiança na época de Jesus, mesmo assim, Jesus enviou mulheres como as primeiras testemunhas de sua ressurreição (Jo 20:17);

3) Filhos devem honrar pai e mãe;

4) Maridos devem amar suas esposas como Cristo amou a igreja (Ef 5:25-33);

5) A pessoa mais venerada em toda a história do Cristianismo, abaixo apenas do próprio Jesus, foi uma mulher: Maria;

6) Desde o começo, mulheres puderam fazer praticamente tudo o que homens fazem na igreja, foram missionárias, diaconisas, discípulas, doutoras da igreja, líderes de conventos e mosteiros (inclusive duplos,com homens e mulheres), etc. Apenas cargos de liderança associados à ministração dos sacramentos estiveram restritos aos homens;

7) A educação para as mulheres foi principalmente um legado do Cristianismo, mulheres podiam estudar em mosteiros e conventos; na Idade Moderna, os reformadores defendiam a educação para que todos pudessem ler e interpretar a Bíblia; cristãos levaram a educação para mulheres em culturas nas quais elas não tinham acesso à educação:

• Uma missionária cristã (Fidelia Fiske) criou a primeira escola para mulheres na Pérsia;

• William Carey, missionário batista, foi pioneiro ao promoveu a educação para mulheres na Índia. Ele também combateu o infanticídio e a prática hindu de queimar de viúvas vivas em piras funerárias (sati);

• O casal Ann e Adoniram Judson também foi pioneiro e criou escolas para meninas na Birmânia.

8) William Carey combateu a queima de viúvas vivas em pitas funerárias na Índia;

9) Por influência de pensadores cristãos, como Basílio de Cesareia e Gregório de Nissa, o Imperador Teodósio proibiu a exploração sexual de escravas, lançando inclusive um precedente para a ideia de que o sexo deve ser consentido;

10) Missionários cristãos combateram a prática de pés de lótus na China, que deformava propositalmente os pés das mulheres. Lin Yutang montrou que foi a influência dos missionários cristãos que levou essa prática a ser proibida em 1912.

Vários outros exemplos poderia ser citados. Basta avaliar os fatos sem o filtro ideológico do feminismo ou de qualquer outra ideologia para perceber que o Cristianismo criou uma cultura na qual a mulher deve ser honrada e protegida.

Marie Lynne Kohm diz que "o cristianismo influenciou profundamente a lei. Um relacionamento pessoal com Jesus Cristo muitas vezes transformou a vida das mulheres. Mulheres transformadas por Cristo têm usado seus dons e talentos para abrir oportunidades que antes não estavam disponíveis oportunidades para mulheres na religião, educação, política e sociedade. (...) Quem acredita que o feminismo, e não o cristianismo, estabelece o tratamento justo das mulheres, não entende o cristianismo."

Alvin J. Schmidt diz que foi o exemplo de Jesus que "seus seguidores refletiram em suas relações com as mulheres, elevando sua dignidade, liberdade e direitos a um nível anteriormente desconhecido em qualquer cultura. Basta lembrar como as mulheres eram maltratadas pelos gregos, romanos, hindus e chineses e por muitas outras sociedades onde o paganismo prevalecia. Antes da chegada do cristianismo, século após século trouxe pouca ou nenhuma liberdade ou dignidade para as mulheres em qualquer cultura pagã."

Também o historiador medievalista Jacques Le Goff diz o seguinte:

"Maria, Maria Madalena, Marta.., Os Evangelhos estão povoados de figuras femininas que rodeiam Cristo e o inspiram, O cristianismo medieval, longe de reduzir a mulher a um papel secundário, ao contrário, deu-lhe um verdadeiro lugar ao lado do homem."

A historiadora Sharon James diz:

"Como o cristianismo se espalhou rapidamente na América Latina, Ásia e África durante o século XX, isso teve um impacto positivo nas mulheres. A pesquisa nas áreas onde o cristianismo está crescendo mais rápido mostra que, assim como na igreja primitiva, o valor concedido às mulheres é um fator significativo. (...)

As mulheres hoje em todo o mundo ainda sofrem opressão. Mas quais são os países onde as mulheres são retidas, proibidas de estudar, casadas quando crianças e sujeitas a abusos sistemáticos, como crimes de honra e mutilação genital? Estes são os países onde o cristianismo é proibido. Embora a maioria seja de nações de maioria muçulmana, o país do mundo apontado como mais perigoso para as mulheres é a Índia, uma nação de maioria hindu, com talvez um bilhão de hindus. Mas há uma forte minoria cristã ali, estimada em cerca de 71 milhões. E os cristãos muitas vezes estão assumindo a liderança em mudar as coisas para melhor para as mulheres."

Até mesmo o historiador progressista Tom Holland, comentando Efésios 5:23-24, afirma:

"... pode parecer sexista agora, que a mulher chega a ser a igreja e não pode ser Cristo. Mas, na verdade, o que Paulo está fazendo é dar uma qualidade sacral incrivelmente potente ao corpo físico de uma mulher. Que uma mulher não está ali para ser abusada sexualmente. Ela não está lá para ser atacada por um homem poderoso. E se isso é verdade para uma mulher aristocrática, também é verdade para a mulher mais humilde de uma família romana."


Referências

DANIYAL, Shoaib. ‘Christianity gave women a dignity that no previous sexual dispensation had offered’: Tom Holland. Scrolls.in. Disponível em: <https://scroll.in/article/953904/christianity-gave-women-a-dignity-that-no-previous-sexual-dispensation-had-offered-tom-holland>. Acesso em: 23 nov. 2022.

KOHM, Lynne Marie. A Christian perspective on gender equality. Duke J. Gender L. & Pol'y, v. 15, p. 339, 2008.

LE GOFF, Jacques. Uma longa idade média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

SHARON, James. Biblical Christianity Upholds the Sanctity of Life and the Dignity of Women. Affinity. Disponível em: <https://www.affinity.org.uk/news/882-biblical-christianity-upholds-the-sanctity-of-life-and-the-dignity-of-women/>. Acesso em: 16 ago. 2023.

SCHMIDT, Alvin J. How Christianity changed the world. Zondervan, 2004.

SHAH, Timothy; HERTZKE, Allen. Christianity and Freedom: Volume 1: Historical Perspectives. Cambridge Studies in Law and Christianity. New York: Cambridge University Press, 2016>

Como o Cristianismo contribuiu para a liberdade religiosa?




Para muitas pessoas, essa pergunta não faz o menor sentido. Elas já vem a fé cristã como intolerante ou opressora. Porém, a liberdade religiosa da qual desfrutamos deve muito ao Cristianismo. É verdade que muitos cristãos perseguiram outras pessoas ao longo da história, mas essa atitude não deriva do ensino cristão, mas apenas da falibilidade humana.

Ainda assim, é injusto que os professores de história, por exemplo, dêem tanto destaque a eventos como a Inquisição (que frequentemente é apresentada de maneira exagerada e distorcida), ignorem o que o Cristianismo realmente ensina sobre a liberdade religiosa e como muitos cristãos defenderam esses ensinos e ainda atribuem a liberdade religiosa de que desfrutamos a ideias seculares.

Segundo a Bíblia, adoração, amor e relacionamento genuínos não podem ser coagidos. Deus chama seu povo para 'escolher o bem' (Deuteronômio 30:15). O Antigo Testamento contém inúmeras condenações de rituais religiosos externos, realizados sem o amor livre e voluntário do coração. Deus prometeu o bem da terra para aqueles que voluntariamente lhe obedecem (Isaías 1:19-20).

O princípio da separação entre igreja e estado também estava implícito na afirmação de Jesus de que devemos "dar a César o que é de César, e, a Deus o que é de Deus".

Com base nessas ideias bíblicas, muitos homens começaram a argumentar que, para que haja verdadeira conversão, os indivíduos devem ser livres de perseguição ou coação. Ninguém pode amar a Deus de maneira forçada, portanto a perseguição não produziu verdadeiros crentes, mas produz apenas hipócritas.

Essa defesa da liberdade religiosa, da tolerância religiosa e da separação entre igreja e estado não remonta ao Iluminismo, mas é muito anterior a esse movimento.

Timothy Shah diz que "esse antigo princípio - uma estreita conjunção de liberdade de consciência e independência eclesial - foi implantado não apenas contra perseguições pagãs, mas também contra o despotismo cristão e projetos dominadores para criar um 'império cristão' unido. Resistindo ferozmente à dominação do imperador Justiniano sobre os assuntos da igreja em meados do século VI, Facundus de Hermiane (d. 570) trovejou: 'porque a própria palavra decisão não tem sentido a menos que alguém realmente decida'. Essas declarações tinham raízes ainda mais profundas nas palavras de Jesus que diferenciavam nitidamente as 'coisas de Deus' das 'coisas de César' e as palavras de Gênesis de que todos os seres humanos carregam igualmente a imagem e semelhança de Deus, palavras que sugerem que o ser humano a liberdade é um reflexo da própria liberdade de Deus e uma marca da dignidade divina inerente à humanidade."

Ele também diz que "escritores cristãos como Tertuliano e Lactâncio - e muitos outros pensadores tratados em nosso estudo, como Bartholome de las Casas e Roger Williams – normalmente formulavam suas articulações e defesas da liberdade de religião e consciência em termos do que hoje chamaríamos de 'razão pública'."

Desde os primeiros séculos da era cristã até a atualidade, cristãos tem se destacado pela defesa da liberdade religiosa. Vejamos quem foram alguns desses homens:

1) Tertuliano:

Tertuliano (c.155-240 dC) usou a expressão 'liberdade religiosa' pela primeira vez na história em sua Apologia, escrita por volta de 197 dC. Ele advertiu os magistrados:

“Cuide para que você não acabe fomentando a irreligião, tirando a liberdade de religião e proibindo a livre escolha no que diz respeito às questões divinas, para que eu não tenha permissão para adorar o que desejo, mas seja forçado a adorar o que não desejo... Nem mesmo um ser humano gostaria de ser honrado de má vontade.”

Tertuliano prosseguiu argumentando que a religião consiste em mais do que rituais – tem que vir da convicção interior; a observância superficial zomba da piedade genuína. A perseguição nunca resultará em devoção genuína. Dez anos depois, quando os cristãos sofriam perseguição em Cartago, norte da África, Tertuliano escreveu uma carta ao governador romano na qual argumentava:

“É um direito humano fundamental, um privilégio da natureza que cada homem deve cultuar de acordo com suas próprias convicções: a religião de um homem não prejudica nem ajuda outro homem. Certamente não faz parte da religião obrigar a religião – à qual o livre-arbítrio e não a força deve nos levar”.

Quando o imperador Constantino emitiu o Édito de Milão em 313 dC, isso não 'impôs' o cristianismo ao Império (que, lamentavelmente, viria mais tarde). O Edito permitiu que o cristianismo operasse livremente. O Edito foi chamado de 'a primeira declaração universal de liberdade religiosa do mundo'. Os cristãos e todos os outros deveriam ter o direito livre e irrestrito de seguir aquele modo de religião que para cada um deles parecesse melhor.

2) Lactâncio:

O teólogo Lactâncio (c. 250-325) viveu no norte da África no século IV. Ele propôs uma política de liberdade religiosa ao imperador Constantino, uma política exigida tanto pela justiça quanto pela piedade:

“…o ofício do açougueiro e a piedade são duas coisas muito diferentes… se você quiser defender a religião pelo derramamento de sangue, tortura e maldade, ela não será defendida – será poluída e indignada. Não há nada que seja tanto uma questão de vontade quanto a religião…”

Lactâncio ensinou que os seres humanos feitos à imagem de Deus são dotados de consciência e defendeu o direito de cada indivíduo de seguir sua consciência. Ele estava convencido de que as leis podem punir ofensas, mas não podem mudar a consciência.

Desastrosamente, em cerca de dez anos, a política de Constantino tornou-se mais coercitiva. Mesmo assim, Hosius, bispo de Córdoba, abriu um importante precedente para a separação entre igreja e estado quando escreveu a Constantino criticando sua atitude: "não te intrometas em assuntos eclesiásticos... Deus colocou em tuas mãos o reino (secular); a nós (bispos), Ele confiou os assuntos de sua igreja." Ele citou Mateus 22:21 em apoio a esse argumento.

Com o tempo, 'a Igreja foi transformada de uma associação voluntária em uma instituição pública', e 'obediência a César e obediência a Deus começaram a se fundir'. Vários estados adotaram um princípio segundo o qual uma nação deveria estar uniformemente comprometida com uma denominação.

No século V, Agostinho defendeu a compulsão contra donatistas e heréticos.

Porém, alguns séculos depois, a defesa da liberdade religiosa reapareceu, como veremos a seguir...

Vale lembrar que mesmo no caso de Agostinho, a postura dele não foi necessariamente injustificada, uma vez que os donatistas já empregavam meios violentos para defender suas ideias, sendo, portanto uma ameaça real.

3) Alcuíno:

Nascido em Northumbria, no século VIII, ele transformou o currículo da escola Cathedral em York. Ele foi então convidado por Carlos Magno para se juntar à sua corte em Aachen em 782. Alcuíno ensinou o próprio Carlos Magno, assim como seus filhos e filhas. Ele foi reconhecido internacionalmente como um dos homens mais brilhantes da época. Ele tentou persuadir o futuro imperador a não impor os costumes cristãos aos saxões. Ele escreveu:

“A fé surge da vontade, não da compulsão. Você pode persuadir um homem a acreditar, mas não pode forçá-lo. Você pode até forçá-lo a ser batizado, mas isso não incutirá a fé nele”.

4) Os anabatistas:

Apesar de nutrirem algumas ideias heterodoxas, os anabatistas recuperaram o ensino bíblico com relação à liberdade religiosa.

Um dos principais anabatistas foi Balthasar Hubmaier. Ele escreveu um poderoso apelo pela liberdade religiosa em 1524: Sobre os hereges e aqueles que os queimam. Ele aceitou que os magistrados têm o dever de manter a lei e a ordem, mas negou o poder deles de impor a religião. Ele escreveu:

“Agora é óbvio para todos… que a lei que exige a queima de hereges é uma invenção do diabo.”

Da mesma forma, Claus Felbinger:

“Deus não quer serviço obrigatório. Pelo contrário, Ele ama um coração justo e disposto que O serve com uma alma alegre e faz o que é certo com alegria”.

A Confissão de Schleitheim (uma confissão de fé anabatista) foi escrita em 1527, em um contexto em que os magistrados usavam a tortura e a pena de morte para impor a religião. Reconheceu que Deus dá aos magistrados autoridade para punir o mal e promover o bem (Romanos 13), mas negou que Deus dê aos magistrados autoridade para impor a religião.

É uma calúnia comumente repetida que os anabatistas rejeitaram toda autoridade civil. O que essa confissão rejeitou foi a ideia de que os verdadeiros crentes pudessem servir como magistrados. Isso porque, em seu contexto histórico particular, servir como magistrado envolveria necessariamente a imposição da intolerância religiosa.

5) Thomas Helwys:

Desde o começo, os batistas defenderam a liberdade religiosa e a separação entre igreja e estado. Segundo a Enciclopédia Britânica, desde o século XVII, "os batistas insistem que uma igreja deve ser livre para ser a igreja de Cristo, determinando sua própria vida e traçando seu próprio curso em obediência a Cristo sem interferência externa (...)

Os batistas estavam na vanguarda da luta pela liberdade religiosa na Inglaterra e nos Estados Unidos. Eles valorizavam a liberdade estabelecida no início de Rhode Island e desempenharam um papel importante em garantir a adoção da cláusula de 'não teste religioso' na Constituição dos EUA e as garantias incorporadas na Primeira Emenda ."

A primeira defesa completa da liberdade religiosa em inglês foi escrita pelo batista Thomas Helwys (c.1575-1616) em 1612. Seu tratado bíblico contra a perseguição religiosa foi chamado O Mistério da Iniquidade. Ele teve a audácia de enviar uma cópia pessoalmente inscrita ao rei James I, escrevendo:

“Se o povo do Rei for súditos obedientes e verdadeiros, obedecendo a todas as leis humanas feitas pelo Rei, nosso Senhor o Rei não pode exigir mais, pois a religião dos homens a Deus está entre Deus e eles mesmos, o Rei não responderá por isso; nem o Rei pode ser juiz entre Deus e os homens”.

Helwys acreditava que, para ser genuína, a fé religiosa deve ser voluntária. A fé forçada não é fé. O rei não tem poder para coagir a alma. Cada indivíduo responde somente a Deus em questões de religião. Helwys argumentou que a liberdade de consciência deveria ser concedida a todos, incluindo católicos, judeus e muçulmanos. James I não ficou impressionado. Helwys foi preso em Newgate, em condições horríveis, e morreu lá em 1616.

6) John Smyth:

John Smyth, outro proeminente batista (posteriormente, menonita) do século XVII, afirmou que

"O magistrado não deve, em virtude de seu ofício, se intrometer na religião ou em questões de consciência, forçar e compelir os homens a esta ou aquela forma de religião ou doutrina, mas deixar a religião cristã livre para a consciência de cada homem."

7) Roger Williams:

O próximo marco da defesa bíblica da liberdade religiosa, The Bloody Tenent of Persecution for the Cause of Conscience Discutido, foi escrito em 1644 pelo batista Roger Williams (1603-1683). Ele chegou a fortes convicções puritanas enquanto estudava na Universidade de Cambridge e em 1631 viajou para Massachusetts. Ele argumentou que a força nunca produz fé genuína, que a adoração forçada é abominável a Deus e que a consciência das pessoas nunca deve ser violada ou constrangida. Ele sustentou que o magistrado não tem lugar no controle da igreja:

“Não pode ser verdadeira aquela religião que precisa de tais instrumentos de violência para sustentá-la.”

Ele comparou a conversão forçada ao estupro espiritual.

8) William Penn:

William Penn (1644-1718), converteu-se em 1659 aos 15 anos. Aos 22 anos, aderiu ao movimento Quaker, o que significou que sua família, por um tempo, o deserdou. Ele foi preso várias vezes na Torre de Londres devido à sua fé. Notoriamente, em 1670, um juiz ordenou que o júri o considerasse culpado; eles recusaram.

O juiz então multou e prendeu o júri. Isso criou um caso de teste famoso quando doze outros juízes decidiram a favor do júri e decidiram que os júris não deveriam ser sujeitos a intimidação. William Penn foi o fundador da colônia da Pensilvânia, e ficou famoso por suas relações justas e boas com os índios norte-americanos Lenape. Ele insistiu que a fé é um dom de Deus, por isso não pode ser forçada, e que a força pode fazer hipócritas, mas não pode converter.

Ele argumentou que a negação da liberdade de consciência é:

“…uma afronta a Deus, pois invade a prerrogativa divina e despoja o Todo-Poderoso de um direito devido a ninguém além de si mesmo.”

9) Oliver Cromwell:

O Protetorado (1653-9) ofereceu um breve interlúdio de maior liberdade religiosa na Inglaterra. Oliver Cromwell acreditava que a liberdade de consciência deveria ser estendida não apenas aos cristãos professos, mas também aos judeus (e a qualquer um que não fosse uma ameaça à ordem civil). Mas a Restauração da Monarquia em 1660 inaugurou uma era de feroz perseguição.

10) John Owen:

O grande puritano John Owen (1616-1683) argumentou em Truth and Innocence Vindicated que o pensamento e a adoração deveriam ser livres. Ele criticou os magistrados por invadirem a prerrogativa de Deus de governar as almas dos homens. Ele se baseou nos escritos de Tertuliano e Lactâncio e argumentou que a liberdade de consciência não se baseia na lei da sociedade, mas na lei da natureza. A liberdade de consciência é uma consequência da liberdade humana: 'A liberdade é necessária à natureza humana.'

11) Elisha Williams:

Durante o auge do Primeiro Grande Despertar, Elisha Williams, ministro congregacional, reitor de Yale, membro da Assembleia Geral e juiz do Tribunal Superior de Connecticut, escreveu um apelo apaixonado por liberdade religiosa intitulado "The Essential Rights and Liberties of Protestants" (1744). Um argumento central neste trabalho é

"que as escrituras sagradas são a única regra de fé e prática para um cristão, todos os protestantes concordam; e deve, portanto, sustentar inviolavelmente que todo cristão tem o direito de julgar por si mesmo o que deve acreditar e praticar na religião de acordo com essa regra."

O argumento de Williams encapsula alguns dos principais compromissos da Reforma Protestante - notadamente, sola scriptura e o sacerdócio de todos os crentes. Se alguém realmente acredita nessas doutrinas, afirmou Williams, deve abraçar a liberdade de consciência. Para ter certeza, este é um argumento muito protestante e, portanto, pode não ter sido tão eficaz em países católicos. Mas em uma colônia que era 99,99% protestante, funcionou bem.

12) John Locke:

Locke (1632-1704) escreveu suas Cartas sobre a tolerância entre 1689 e 1692 após as guerras religiosas na Europa. Ele argumentou que a tolerância é a principal marca característica da verdadeira Igreja e que a crença não pode ser compelida pela violência.

Nas raízes da articulação cristã da importância da liberdade religiosa estão os seguintes princípios:

• A religião é uma convicção interior que não pode ser coagida

• Todo ser humano é feito à imagem de Deus, então deve ser conferida dignidade

• Cada indivíduo deve ser livre seguir sua consciência religiosa

• Deus só é honrado quando devoção e adoração são dadas voluntária e livremente

Poderiam ser citadas várias outras pessoas que defenderam a liberdade religiosa cuja consciência foi moldada por ideias cristãs. Por meio de todos eles, o mundo ocidental foi profundamente modificado. Hoje é comumente chamado de "o mundo livre".

Isso começou desde os primeiros séculos da Era Cristã. De acordo com Timothy Shah, "quando os co-imperadores Licínio e Constantino, este último notoriamente cristão, mas o outro pagão, emitiram o chamado 'Édito de Milão' em 313 d.C., eles não apenas encerraram formalmente a perseguição cristã patrocinada pelo Estado, mas também declararam que “os cristãos e todos os outros deveriam ter o direito livre e irrestrito [ liberam potestatem ] de seguir aquele modo de religião que para cada um deles parecesse melhor”. Esse reconhecimento formal de um direito universal à liberdade religiosa não foi apenas surpreendente. Foi o claro eco político dos argumentos que os primeiros pais da igreja, particularmente Tertuliano (c. 160-240 dC) e Lactâncio (c. 240-320 dC), mas também outros, vinham fazendo e desenvolvendo por muitas décadas, começando no meio do segundo século."

Mesmo Agostinho, que defendeu a coação a alguns hereges, deu sua contribuição para a liberdade religiosa e a separação entre igreja e estado ao fazer distinção entre a cidade secular e a "cidade de Deus". Como afirma o estudioso Dinesh D'Souza:

"É importante reconhecer que a separação dos campos do Estado e da Igreja tem funcionado desde o começo do Cristianismo. Não é uma invenção da modernidade, embora, nos tempos modernos, tenha sido dada uma nova, e até certo ponto perversa, forma a essa separação. Na Roma dos césares, os governantes eram imperadores, e a Igreja cristã era uma minoria perseguida totalmente distinta do império. Uma vez que o Cristianismo se tornou a religião oficial do império romano no final do século IV, os dois campos foram até certo ponto integrados. Mas, mesmo assim, a Igreja administrava os sacramentos e o imperador ratificava e aplicava as leis. Mesmo durante o período trágico da Inquisição Espanhola, se você cometesse uma heresia, era julgado pela Igreja, enquanto, se cometesse um assassinato, era julgado pelo Estado. Assim, Igreja e Estado funcionavam como jurisdições distintas, às vezes se sobrepondo, ao longo da história ocidental. Portanto, é hoje que nós, no Ocidente, arregalamos os olhos em uma horrorizada incompreensão quando um governo islâmico propõe executar uma mulher por ela se recusar a usar as vestes exigidas pela religião e um homem por ousar se converter ao Cristianismo."

A Reforma Protestante também foi um divisor de águas. Com o surgimento de denominações protestantes, a defesa da liberdade religiosa tornou-se mais frequente. Com isso, reformas foram feitas em vários países para garantir a liberdade e a coexistência pacífica de diferentes grupos cristãos (aos poucos estendida também a outros grupos religiosos e a pessoas sem religião).

A Polônia, país católico, na Confederação de Varsóvia, promoveu a tolerância a todas as religiões, como solução para a rivalidade religiosa no país. Pouco depois de se separar da Espanha católica, a Holanda também deu um passo ousado para promover a liberdade religiosa. A Prússia seguiu logo o mesmo caminho. Na colônia britânica de Maryland, uma das treze colônias que deram origem aos EUA, os primeiros colonizadores chegaram em 1634, e 15 anos depois, uma lei local garantiu a liberdade religiosa a todas as denominações cristãs.

Outras das treze colônias, como a Pensilvânia e Rhode Island, fundadas por William Penn e Roger Williams, respectivamente, também garantiram a liberdade religiosa, seguidas por outras colônias. Em Hanover Country, Virginia, presbiterianos escreveram, com base em argumentos cristãos, uma defesa da liberdade religiosa.

De acordo com o historiador Geoffrey Blainey, "os provocadores da Reforma lançaram a pedra fundamental da religiosa."

De 1760 a 1805, patriotas americanos citavam mais a Bíblia que autores iluministas. David Mark Hall diz que "os fundadores da América rotineiramente apresentavam argumentos baseados em premissas cristãs para apoiar uma compreensão robusta da liberdade religiosa."

Tudo isso resultou na Primeira Emenda da Constituição Americana, que assegura a liberdade religiosa e separação entre igreja e estado. Essa separação entre igreja e estado tinha por objetivo impedir que o estabelecimento de igrejas pelo Estado em um ambiente no qual a diversidade denominações cristãs era grande, com isso assegurando a liberdade para todos.

Essa atitude influenciou outros países ocidentais e cristãos pelo mundo. Com isso, o poder da mensagem do Evangelho não apenas transformou vidas, mas modificou a própria sociedade, gerando uma cultura mais tolerante e livre.

Revoluções seculares, ao contrário, promoveram uma versão intolerante dessa "separação entre igreja e estado", como explica a Enciclopédia Britânica:

"A partir do final do século XVIII, duas atitudes fundamentais se desenvolveram em questões relacionadas à separação entre Igreja e Estado. A primeira, como está implícita na Constituição dos Estados Unidos, foi sustentada por uma tendência de deixar à Igreja, liberta da supervisão estatal, uma liberdade máxima na realização de suas tarefas espirituais, morais e educacionais. Nos Estados Unidos, por exemplo, uma escola e um sistema educacional abrangentes foram criados pelas igrejas com base nessa liberdade, e várias faculdades e universidades foram fundadas pelas igrejas. A separação entre Igreja e Estado pela Revolução Francesa e mais tarde na União Soviética e os países sob a esfera de influência da União Soviética baseava-se em uma tendência oposta. A tentativa não era apenas restringir o papel público da igreja, mas também trabalhar para seu desaparecimento gradual. A igreja deveria ser substituída por uma ideologia secular."

Hoje, o secularismo tem se tornado mais forte hoje no Ocidente como um todo e em partes da América Latina. Também não tem gerado liberdade.

Em países como Alemanha, Espanha, Reino Unido, Suécia e França, a intolerância a cristãos tem sido forte. Na Alemanha, os crimes de ódio contra cristãos aumentaram 150% em 2020. Na Suécia, o Partido Social-Democrata e o Partido Liberal querem obter maioria no parlamento para proibir escolas religiosas independentes. Ataques parecidos tem ocorrido em outros lugares.

Uma ONG que monitora a intolerância contra cristãos na Europa relatou o seguinte:

"Através de nossa pesquisa, identificamos uma crescente intolerância e discriminação principalmente de dois eixos. Primeiro, do lado governamental por meio de legislação, ou discurso político que mina as liberdades dos cristãos e, segundo, do lado individual, por meio da exclusão social e atos criminosos contra os cristãos. Descobriu-se também que a principal dinâmica que causa a erosão e limitação das liberdades dos cristãos é o que se denominou de intolerância secular."

A intolerância também tem levado cristãos a se auto-censurarem, por medo da hostilidade, processos, perda empregos e outros problemas que podem ser enfrentados por suas visões sobre fé, sexualidade, casamento, etc.

"Algumas pessoas realmente temem ser submetidas a processos judiciais ou serem punidas criminalmente por acusações de discriminação, enquanto outras temem ser submetidas a processos disciplinares em seu trabalho ou locais", disse um estudo sobre a auto-censura em cristãos.

A liberdade ocidental, fruto de dois mil anos de Cristianismo, começa a se deteriorar.

Não, o Cristianismo não gera "intolerância", nem o secularismo gera "liberdade". Na verdade, o oposto estaria mais próximo da realidade.

Por isso o pensador e historiador francês Alexis de Tocqueville, ao conhecer os EUA no século XIX, pôde dizer o seguinte:

"Os americanos combinam as noções de Cristianismo e liberdade tão intimamente em suas mentes, que é impossível fazê-los conceber uma sem a outra."



Referências

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do cristianismo. Curitiba: Editora Fundamento, 2012.

D'SOUZA, Dinesh. A verdade sobre o cristianismo. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2008.

HALL, Mark David. Did America have a Christian founding?: separating modern myth from historical truth. Thomas Nelson, 2019.

JAMES, Sharon. How Christianity Transformed the World. Christian Focus Publications, 2021.

SCHMIDT, Alvin J. How Christianity changed the world. Zondervan, 2004.

SHAH, Timothy; HERTZKE, Allen. Christianity and Freedom: Volume 1: Historical Perspectives. Cambridge Studies in Law and Christianity. New York: Cambridge University Press, 2016.

https://www.britannica.com/topic/Baptist/Teachings

https://www.britannica.com/topic/Christianity/Separation-of-church-and-state

https://www.iwp.edu/articles/2018/01/12/the-dechristianization-of-france-during-the-french-revolution/

https://berkleycenter.georgetown.edu/responses/religious-freedom-s-roots-and-fruits-from-antiquity-to-the-present-day

https://www.dailymail.co.uk/news/article-10295787/Anti-Christian-hate-crimes-Germany-increased-nearly-150-2020.html

https://www.thelocal.se/20180313/swedens-social-democrats-propose-ban-on-religious-independent-schools/

https://www.thelocal.se/20220204/sweden-proposes-stricter-controls-for-religious-free-schools/

https://www.varldenidag.se/nyheter/liberalerna-vill-forbjuda-alla-konfessionella-friskolor/repvfq!T67FulaxZ3y8w44cCMnMw/

https://cne.news/artikel/1341-swedish-liberals-want-a-total-ban-on-denominational-schools

https://ethosinstitute.sg/secularintolerance/

https://www.intoleranceagainstchristians.eu/publications/top-5-report-2020-1

https://www.foxnews.com/world/watchdog-groups-secular-censorship-christians

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Stephen Hawking e sua crítica ao teísmo


 

Há um conceito em estudos religiosos conhecido como "homo religiosus".

O que ele propõe é que o ser humano é natural inclinado à fé religiosa. Todo ser humano busca algum tipo de significado, transcendência, etc. Não é uma ideia incontroversa, mas eu a considero bastante sólida.

Essas divindades expressam bem essa necessidade humana. O culto sempre esteva na raiz da civilização humana. O tipo de culto mais comum era o culto às forças da natureza e aspectos da natureza humana. Povos do passado geralmente personificavam e cultivavam forças da natureza. Daí a origem desses panteões, com deuses representando o céu, o sol, a terra, o trovão, o mar, etc. Algumas religiões ainda refletem essa tendência, como as religiões de matriz africana, em que orixás personificam forças da natureza.

Na cultura greco-romana, essas religiões entraram em declínio, graças, entre outras coisas, às críticas dos filósofos. Por exemplo, Xenófanes observou que os deuses representados nos mitos limitavam as paixões humanas. Eles possuíam as falhas de um ser humano, mais especificamente, dos povos que os cultuavam. Além disso, ele também observou que os deuses se pareciam com esse povos até em sua aparência física. Por exemplo, os gregos cultivavam deuses brancos, os etíopes tinham deuses negros, os povos orientais tinham deuses com traços orientais. Xenófanes chegou a brincar que se vacas, cavalos ou leões pudessem desenhar e criar, eles criaram deuses com aparência de vacas, cavalos e leões, respectivamente. Ele concluiu que esses deuses foram inventados por esses povos.

Epicuro, o grande filósofo atomista, observou que a personificação e divinização de forças da natureza era um tapa buracos para a ignorância humana. Dizer que os raios eram lançados do céu por uma divindade ou que o trovão era o rugido de um deus era algo sem justificativa racional e que até impedia que as pessoas entendessem as verdadeiras leis que regiam a natureza.

Isso começou a mudar com Tales de Mileto. A partir daí, os aspectos da natureza passaram a ser investigados e as verdadeiras explicações para eles foram sendo encontradas. Como disse Epicuro: "Trovões podem ser produzidos de várias maneiras - só esteja certos dos mitos ficarem fora disto! E eles serão mantidos fora disto se as aparências forem corretamente perseguidas e estas forem consideradas como sinais do que não é observável."

Stephen Hawking, em seu livro O Grande Projeto, comete o erro de equiparar esses mitos ao teísmo (inclusive cristão) que ensina a existência de um único Deus transcendente.

Porém, essas críticas eram diferentes de uma defesa do ateísmo e não se aplicam a um Deus transcendente. O próprio Xenófanes disse: "Há um único Deus (...) em nada parecido com os mortais, seja em forma ou pensamento (...) que distante e sem esforço, governa tudo o que existe." Antes dele, Moisés já havia condenado o culto a aspectos da natureza como idolatria.

O Deus da Bíblia não é a personificação de forças da natureza, nem compartilha das imperfeições ou das falhas de caráter do homem.

O Werner Jaeger escreveu um texto bem interessante, justamente expondo essa diferença:

"Se compararmos essa hipótese do Eros criador do mundo com o Logos da explicação hebraica da criação, podemos observar uma profunda diferença nos pontos de vista dos dois povos. O Logos é a substancialização de uma propriedade intelectual ou do poder do Deus criador, que jaz fora do mundo e o traz à existência pela sua ordenação pessoal. Os deuses gregos jazem dentro do mundo; eles descendem da Terra e dos céus [...] são gerados pela força do Eros que também se situa dentro do mundo como uma força que tudo engendra. Assim eles estão sujeitos ao que devemos chamar de lei natural. [...] Quando o pensamento de Hesíodo finalmente possibilita uma via de pensamento verdadeiramente filosófica, o Divino é procurado dentro do mundo - não fora dele, como acontece na teologia-judaico cristã que se desenvolve a partir do livro de Gênesis."

(WERNER, Jaeger. The Theology of the Early Greek Philosophers, pág. 16-17; citado em LENNOX, 2015)


Referência

LENNOX, John. Deus e Stephen Hawking: de quem é o projeto afinal?, Londrina: IDE, 2015

Refutação ao capítulo IX de "O Céu e o Inferno", de Kardec


O Espiritismo, em seu esforço para redefinir o Cristianismo, tenta mudar o conceito de céu, inferno, anjos e demônios. Essa é a empreitada de Allan Kardec no livro O Céu e o Inferno.

No capítulo IX, o foco de Kardec são os demônios. O capítulo é dividido em três partes. Na primeira, ele descreve aquela que ele acha que é a origem da doutrina dos demônios. Na segunda parte, ele tenta refutar a visão cristã a respeito do tema. Na terceira parte, ele apresenta a visão espírita.

O presente artigo visa apresentar as contradições, as falácias e as incoerências que tornam fracassada essa iniciativa espírita de apresentar uma visão alternativa dos demônios.


Parte Primeira: supostas origens da doutrina dos demônios

A primeira parte argumenta que a origem da doutrina dos demônios remonta à influência da mitologia persa. Existe um grande furo nessa teoria que Kardec não levou em consideração: o Cristianismo não é dualista. Na mitologia persa, há duas forças co-eternas e equivalentes em conflito.

Segundo a Enciclopédia Britânica, o dualismo é "a doutrina de que o mundo (ou realidade) consiste em dois princípios básicos, opostos e irredutíveis que explicam tudo o que existe."

Diz Kardec:

"O duplo princípio do bem e do mal foi, durante muitos séculos, e sob vários nomes, a base de todas as crenças religiosas. Vemo-lo assim sintetizado em Oromaze e Arimane entre os persas, em Jeová e Satã entre os hebreus. Todavia, como todo soberano deve ter ministros, as religiões geralmente admitiram potências secundárias, ou bons e maus gênios. Os pagãos fizeram deles individualidades com a denominação genérica de deuses e deram-lhes atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as virtudes. Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios."

Porém, essa visão sobre a origem da doutrina dos anjos e demônios não se coaduna com os fatos. Conforme explica o teólogo Millard Erickson, "o ensino bíblico sobre a criação não permite qualquer tipo de dualismo. O Criador é único: ele é o único que trouxe a realidade à existência. Assim, a ideia de um segmento da criação inerentemente maligno, que tem sua origem em algum ser maligno poderoso, como o diabo, é rejeitada. Embora o diabo possa modificar ou corromper o material criado, ele não pode trazer nada à existência. Além disso, porque Deus é responsável pela origem de tudo, não existe nenhum segmento neutro da criação desprovido de significado espiritual. Assim, não há divisão da realidade entre o inerentemente bom e o mau, nem entre o sagrado, aquilo que é espiritualmente significativo, e o secular, aquilo que é espiritualmente indiferente."

A visão cristã de Deus e Satanás difere substancialmente da mitologia persa que envolve Spenta Manyu (ou Ahura Mazda em algumas versões) e Angra Mainyu. No Cristianismo, Deus é concebido como o Ser supremo, todo-poderoso e benevolente, criador do universo e fonte de amor e justiça. Ele é visto como um Deus de misericórdia, oferecendo a salvação e redenção a seus seguidores. No entanto, é importante ressaltar que, na teologia cristã, Deus é único e eterno, não compartilhando sua divindade com nenhuma outra entidade. Ele é o criador e sustentador de todas as coisas, e sua autoridade é absoluta.

Em contraste, Satanás não é uma força coeterna ou equivalente a Deus no Cristianismo. Ele é uma criatura, originalmente um anjo criado por Deus, que se rebelou contra sua autoridade. Satanás é, portanto, uma criação de Deus, e sua existência está dentro dos limites estabelecidos por Deus. Sua oposição a Deus é uma escolha voluntária, mas ele não é uma figura divina equiparada a Deus.

Conforme explica David Albert Jones:

"O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo têm muito em comum no que dizem sobre Satanás. Todos aceitam que tal criatura existe. Todos veem Satanás como o inimigo da raça humana. Todos ensinam que Satanás já foi bom e caiu por sua própria vontade. Ninguém faz de Satanás um deus maligno. Para as religiões abraâmicas existe apenas um Deus, e Deus é bom. Pensar que Satanás equivale à personificação de todo o mal é exagerar a sua importância. O Satanás é simplesmente uma criatura que se afastou da sua verdadeira felicidade e agora procura estragar a felicidade das criaturas humanas."

Além disso, no Cristianismo, o mal não é considerado uma substância em si mesma, mas sim uma ausência ou desvio do bem. Essa visão, influenciada pelo pensamento de Santo Agostinho, destaca que o mal não tem uma existência independente; em vez disso, é uma privação da bondade divina. A dualidade entre Deus e Satanás representa uma luta entre o bem e o mal, onde o mal é uma provação do bem, uma escolha contrária à vontade de Deus.

Jones destaca que a tradição judaico-cristã sobre anjos é muito mais antiga que a zoroastriana, além de também ser muito diferente. Comentando Gênesis 18, ele diz:

Quem são estas três figuras que emergem do calor cintilante para visitar o velho que descansa à sombra de um antigo carvalho? Eles são anjos, e o velho é Abraão. Esta é uma das primeiras menções de anjos numa das primeiras partes das Escrituras Hebraicas. Na sua forma escrita atual, esta passagem tem talvez cerca de três mil anos, mas a história em si é certamente mais antiga, parte de um ciclo de histórias sobre Abraão, Isaque e Jacó, que teria sido transmitida oralmente, parte da história de o povo judeu. (...) A história da hospitalidade de Abraão pertence à vertente mais antiga da tradição religiosa que fala de anjos"

Por fim, na mitologia persa, a dualidade entre Ahura Mazda e Angra Mainyu não implica que Angra Mainyu seja um opositor ativo de Ahura Mazda, como é retratado Satanás em relação a Deus no Cristianismo. Em vez disso, eles representam princípios opostos do cosmos, coexistindo em uma dualidade filosófica. Portanto, a natureza da oposição e a relação com a divindade suprema são notavelmente diferentes entre as duas tradições religiosas.

O Cristianismo não é uma tradição religiosa dualista, em contraste com algumas outras crenças, como o Zoroastrismo persa, que adotam um dualismo explícito. O dualismo implica que há duas forças supremas e opostas que compartilham poder igual na criação e no controle do universo. No entanto, no Cristianismo, essa dualidade não existe.

Em resumo, o Cristianismo não é dualista, pois reconhece Deus como a única divindade suprema e não atribui a Satanás um poder ou autoridade igual ao de Deus, tornando-o uma criatura criada e limitada em oposição a uma divindade suprema e eterna. Portanto a ideia defendida por Kardec não tem fundamento.

Erickson, ao comentar sobre essa teoria de que a figura de Satanás tem origem na mitologia persa, faz um diagnóstico preciso: "Apesar dessa ideia ser superficialmente atraente, ela tem um defeito grave ao não levar em conta que o ponto de vista cristão não contém nada do dualismo que tantas vezes está no pensamento persa."

A conclusão de Jones é igualmente precisa:

"Existem alguns paralelos aqui, mas precisamos lembrar que o Judaísmo e o Zoroastrismo são religiões muito diferentes.

(...)

Os paralelos são também complicados pelo facto de, sob a influência dos missionários cristãos no século XIX, a moderna doutrina zoroastriana ter sido apresentada de uma forma mais próxima do ensinamento judaico e cristão sobre os anjos. Por exemplo, o símbolo moderno mais comum do Zoroastrismo, uma figura humana alada (denominada faravahar porque supostamente representa um fravashi), é, em alguns aspectos, uma invenção moderna"

Ele chega a dizer que talvez seja melhor não usar a palavra "anjo" para os seres do Zoroastrismo:

"Talvez seja melhor não usar a palavra “anjo” para designar as criaturas espirituais do Zoroastrismo ou do Hinduísmo. Traçar paralelos entre anjos e fravashis, amesha gastadas, devas ou mahadevas, tem mais probabilidade de nos confundir do que de nos esclarecer. Esses espíritos zoroastristas e hindus não desempenham o mesmo papel no Zoroastrismo ou no Hinduísmo que os anjos desempenham no Judaísmo, no Cristianismo e no Islã. A palavra “anjo” e as imagens, ideias e histórias contemporâneas sobre anjos chegaram até nós a partir de uma tradição que começa com Abraão. Este livro é sobre esses seres. As crenças hindus e zoroastristas merecem livros próprios"


Parte segunda: argumentos contra a doutrina dos demônios

Na segunda parte do capítulo, Kardec apresenta seus argumentos contra a concepção cristã dos demônios. Esses argumentos, como veremos, carecem de uma lógica sólida e frequentemente tem como alvo espantalhos da verdadeira visão cristã.

Lendo o capítulo, identifiquei doze alegações de Kardec que irão discutir agora.

 • Alegação 1: 

Kardec afirma: "Satanás existe de toda a eternidade, como Deus, ou ser-lhe-á posterior? Existindo de toda a eternidade é incriado, e, por consequência, igual a Deus. Este Deus, por sua vez deixará de ser único, pois haverá um deus do mal. Mas se lhe for posterior? Neste caso passa a ser uma criatura de Deus. Como tal, só praticando o mal por incapaz de fazer o bem e tampouco de arrepender-se, Deus teria criado um ser votado exclusiva e eternamente ao mal. Não sendo o mal obra de Deus, seria contudo de uma das suas criaturas, e nem por isso deixava Deus de ser o autor, deixando igualmente de ser profundamente bom. (...)

Tal foi, por muito tempo, a crença neste sentido."

Essa afirmação é equivocada. Na doutrina cristã tradicional, Deus criou os anjos, incluindo Satanás, como seres bons e com livre arbítrio. A maldade de Satanás surgiu de sua escolha de se rebelar contra Deus. Portanto, não se pode atribuir a criação direta de Satanás como um ser maligno a Deus, mas sim à escolha de Satanás de se afastar do bem. Essa sempre foi a visão cristã. Cristãos nunca ensinaram que Deus criou um ser maligno. Kardec não apresenta uma única evidência para sua afirmação. Essa afirmação é infundada e há várias evidências contra ela. Por exemplo, Agostinho, em sua época, já dizia o seguinte:

"Considerando que estas coisas são assim, esses espíritos que chamamos anjos nunca foram em qualquer época ou de qualquer forma trevas, mas, assim que foram feitos, foram feitos luz. Contudo, eles não foram criados assim para que existissem e vivessem seja de que forma fosse, mas foram iluminados para que vivessem sábia e abençoadamente. Alguns deles, tendo se afastado desta luz, não ganharam esta vida sábia e bendita, que é certamente eterna e acompanhada com a confiança firme da sua eternidade. Mas eles ainda têm a vida da razão, embora obscurecida com a loucura, e isto eles não podem perder mesmo que queiram"

 • Alegação 2:

"Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos; como, sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse Deus, em cuja presença se encontravam? Ainda se tivessem logrado uma tal eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfeição, poderíamos conceber um triste retrocesso; não, porém, do modo por que no-los apresentam, isto é, perfeitos de origem."

A questão de como demônios, originalmente perfeitos, poderiam cair é abordada por teólogos como Norman Geisler e Augustus Hopkins Strong. Eles argumentam que a queda dos anjos se deu devido ao livre-arbítrio concedido por Deus. Embora tenham sido criados perfeitos, a capacidade de escolher o mal acompanha a liberdade. Geisler diz que "Deus fez as criaturas perfeitas e lhes deu natureza perfeita e liberdade perfeita. Mas com a liberdade, embora boa em si mesma, vem a capacidade para pecar. Portanto, o pecado surgiu no peito de um arcanjo na presença de Deus."

Kardec também dá a entender que o conhecimento moral dos anjos seria um impedimento ao pecado e à queda, no entanto esse argumento não se sustenta. Conforme explica Strong, "nenhuma soma do simples conhecimento garante a ação moral correta. Se os homens gratificam a presente paixão, apesar de seu conhecimento de que o pecado envolve a miséria presente e a perdição futura, não é impossível que Satanás possa ter feito o mesmo." Portanto, a queda dos anjos não implica uma falha na criação divina, mas sim na escolha deles.

 • Alegação 3:

"Pois que nem a Igreja e nem os sagrados anais explicam a causa da rebelião dos anjos para com Deus e apenas dão como problemática (quase certa) a relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo

(...) Se a Igreja e a História se calam, se a coisa apenas parece certa, claro, não passa de hipótese, e a cena descritiva é mero fruto da imaginação."

Se Kardec estava querendo dizer que a falta de mais informações prova que a queda dos demônios, é fruto da imaginação, trata-se de um argumento infundado. A falta de uma explicação detalhada na Bíblia sobre a causa da rebelião dos anjos não invalida a crença em sua existência. A Bíblia fornece informações suficientes para sustentar a doutrina da queda dos anjos rebeldes. A ausência de detalhes adicionais sobre esse evento específico não significa que ele seja fruto da imaginação, mas que Deus não revelou todos os pormenores.

Se ele apenas quis dizer que as falas atribuídas a Satanás sobre subir a acima das nuvens não tem nenhum fundamento, eu concordaria, mas isso não contribui em nada para minar o fato de que Deus criou muitos anjos que depois caíram.

 • Alegação 4:

"As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirável num arcanjo que, por sua natureza e grau atingido, não deve participar, quanto à organização do universo, dos erros e dos prejuízos que os homens têm professado, até serem pela Ciência esclarecidos. Como poderia, então, dizer que fixaria residência acima dos astros, dominando as mais elevadas nuvens?!"

Kardec questiona a suposta fala de Satanás sobre elevar-se acima das nuvens, que é uma linguagem poética e simbólica usada na Bíblia. O Livro de Isaías, por exemplo, usa esse tipo de linguagem para descrever a queda de um rei humano, não a afirmação científica de Satanás. A crítica de Kardec à suposta ignorância de Satanás nesse contexto não se sustenta, pois a passagem não tem a intenção de ser uma descrição científica.

Aliás, o próprio Kardec contradiz a ciência ao falar no mesmo parágrafo em um "infinito espaço". Cientificamente, o universo é um espaço finito e em expansão.

 • Alegação 5:

"Do que precede se infere que os anjos decaídos pertenciam a uma categoria menos elevada e perfeita, não tendo atingido ainda o lugar supremo em que o erro é impossível. Pois seja, mas, então, há manifesta contradição nesta afirmativa: Deus em tudo os tinha criado semelhantes aos espíritos sublimes que, subdivididos em todas as ordens e adstritos a todas as classes, tinham o mesmo fim e idênticos destinos, e que seu chefe era o mais belo dos arcanjos."

Kardec alega que os demônios habitam um céu inferior e que, por isso, foram criados inferiores aos anjos bons. No entanto, a doutrina cristã afirma que todos os anjos foram criados com a capacidade de escolher pecar, uma vez que possuem livre arbítrio. A crença de que Deus criou anjos habitando céus diferentes não tem nenhuma base no ensino cristão, nem mesmo no texto citado por Kardec, que diz apenas: 

“A escritura e a tradição denominam Céu o lugar no qual se haviam colocado os anjos, no momento da sua criação. Mas esse não era o Céu dos céus, o Céu da visão beatífica, onde Deus se mostra de face aos seus eleitos, que o contemplam claramente e sem esforço, porque aí não há mais possibilidade nem perigo de pecado; a tentação e a dúvida são aí desconhecidas; a justiça, a paz e a alegria reinam imutáveis, a santidade e a glória imperecíveis. Era, portanto, outra região celeste, uma esfera luminosa e afortunada, essa em que permaneciam tão nobres criaturas favorecidas pelas divinas comunicações, que deveriam receber com fé e humildade até serem admitidas no conhecimento da sua realidade — essência do próprio Deus.”

O texto em nenhum lugar diz que Deus colocou anjos em céus diferentes, mas diz que os anjos em sua criação foram colocados em único lugar que a "escritura e a tradição denominam Céu", embora não seja o Céu dos Céus; não diz que Deus colocou anjos também neste último desde o momento de sua criação.

Muitos anjos escolheram permanecer fiéis a Deus, enquanto outros, como Lúcifer, optaram pela rebelião. Portanto, a inferioridade não está na criação, mas na escolha.

 • Alegação 6: 

"(...) o Deus onisciente sabia que alguns dentre esses anjos viriam a falir, arcando com a eterna condenação e arrastando a igual sorte uma parte da humanidade. E assim, de caso pensado, previamente condenava o gênero humano, a sua própria criação. Deste raciocínio não há fugir, porquanto de outro modo teríamos que admitir a inconsciência divina, apregoando a não presciência de Deus. Para nós é impossível identificar uma tal criação com a soberana bondade. Em ambos os casos vemos a negação de atributos, sem a plenitude absoluta dos quais Deus não seria Deus."

Kardec argumenta que o fato de Deus ter criado aqueles espíritos angélicos que ele sabia que cairiam e fariam o mal contradiz os atributos de Deus. Porém, se esse fosse o caso, a criação por Deus de pessoas que ele sabia que fariam o mal (ex. Hitler) também iria contradizer o caráter de Deus. Como diz Strong, "a sedução do puro pelo impuro, a chantagem, a escravização e a guerra, tudo isso tem sido permitido entre os homens. Não é mais inconsistente com a benevolência de Deus permiti-los entre os espiritos angélicos."

Além disso, Kardec parece atribuir a condenação de algumas pessoas à queda desses anjos, no entanto as pessoas pecaram e caíram por sua própria escolha. A responsabilidade é delas. Satanás apenas as tentou, mas não tinha poder para as compelir ao pecado.

 • Alegação 7:

"A inutilidade do arrependimento e a impossibilidade de regeneração, isso sim, importaria na negação da divina bondade."

Kardec sugere que a inutilidade do arrependimento dos demônios é incompatível com a bondade divina. No entanto, essa é uma deturpação do ensino cristão. A doutrina cristã sustenta que os demônios, devido à sua escolha contínua de rebelião e maldade, não buscam o arrependimento. Sua natureza foi corrompida de tal forma que não desejam a redenção, e, portanto, a inutilidade do arrependimento é uma consequência de suas próprias ações.

 • Alegação 8:

"Por esta doutrina, apenas uma parte dos demônios está no inferno; a outra vaga em liberdade, envolvendo-se em tudo que aqui se passa, dando-se ao prazer de praticar o mal e isso até o fim do mundo, cuja época indeterminada não chegará tão cedo, provavelmente. Mas por que uma tal distinção? Serão estes menos culpados? Certo que não (...)"

Kardec questiona a suposta distinção injusta entre demônios livres e presos. A falta de conhecimento sobre essa os motivos para essa distinção não implica que tais razões não existem, mas apenas que Deus não as quis revelar. Kardec utiliza um argumento da ignorância, o que constitui falácia lógica.

Além disso, há outras interpretações na tradição cristã, além dessa de que já há muitos anjos presos. Geisler e Erickson apresentam duas teorias alternativas sobre a condição dos anjos caídos. A primeira teoria sugere que os versículos de 2 Pedro 2:4 e Judas 6 podem estar falando do destino final dos anjos caídos, que já foram sentenciados por Deus, mas ainda não começaram a cumprir sua pena. Eles estão cientes de que o dia de seu julgamento está chegando. A segunda teoria considera que todos os demônios, não apenas alguns, estão na condição descrita nas passagens, e essas descrições refletem a situação de todos os anjos caídos. Essas teorias alternativas levam em conta a possibilidade de que a prisão e a liberdade dos demônios não sejam necessariamente mutuamente exclusivas, mas refletem a complexidade da condição dos anjos caídos.

 • Alegação 9:

"Suas ocupações consistem, pois, em martirizar as almas que seduziram. Assim, não se encarregam de punir faltas livre e voluntariamente cometidas, porém as que eles próprios provocaram. São ao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo; e, coisa singular, que a justiça humana por imperfeita não admitiria — a vítima que sucumbe por fraqueza, em contingências alheias e porventura superiores à sua vontade, é tanto ou mais severamente punida do que o agente provocador que emprega astúcia e artifício, visto como essa vítima, deixando a Terra, vai para o inferno sofrer sem tréguas, nem favor, eternamente, enquanto o causador da sua primeira falta, o agente provocador, goza de uma tal ou qual dilação e liberdade até o fim do mundo."

Kardec alega que as pessoas que pecaram sofreriam mais do que os demônios, o que seria injusto. A doutrina cristã ensina que as punições no inferno são proporcionais à conduta de cada indivíduo, não uma punição uniforme. Satanás tenta o homem, mas este peca por sua própria vontade e é responsável por suas ações.

Além disso, a ideia de que demônios torturam pessoas no inferno não é uma crença presente nas Escrituras.

 • Alegação 10:

"Deus podia ignorar, no entanto, o abuso que fariam de uma liberdade por Ele mesmo concedida? Então, por que a concedeu? Mas nesse caso é com conhecimento de causa que Deus abandona suas criaturas à mercê delas mesmas, sabendo, pela sua onisciência, que vão sucumbir, tendo a sorte dos demônios. Não serão elas de si mesmas bastante fracas para falirem, sem a provocação de um inimigo tanto mais perigoso quanto invisível?"

Kardec questiona por que Deus permite que os demônios levem pessoas ao inferno. Ao fazer isso, ele deturpa o ensino cristão, dando a entender que uma pessoa condenada ao inferno pode se arrepender, mas que Deus não leva em conta esse arrependimento. Ele diz: "arrependimento, regeneração, lamentos, tudo supérfluo". Na crença cristã, as pessoas condenadas ao inferno o são por escolha própria e porque não se arrependeram. Uma vez no inferno, a rejeição do arrependimento é uma característica de sua escolha contínua de rebelião. Não há pessoas arrependidas no inferno.

 • Alegação 11:

"Donde provém essa impossibilidade? Não se compreende que ela seja a consequência de sua similitude com o homem depois da morte, proposição que, ademais, é muito ambígua.

Acaso provirá da própria vontade dos demônios? Porventura da vontade divina? No primeiro caso a pertinácia denota uma extrema perversidade, um endurecimento absoluto no mal, e nem mesmo se compreende que seres tão profundamente perversos pudessem jamais ter sido anjos de virtude, conservando por tempo indefinido, na convivência destes, todos os traços da sua péssima índole e natureza.

No segundo caso, ainda menos se compreende que Deus inflija como castigo a impossibilidade da reparação, após uma primeira falta. O Evangelho nada diz que com isso se pareça."

Kardec questiona a reabilitação dos demônios, mas as soluções propostas por Geisler não sustentam a ideia de que Deus não é bom ou que os demônios nunca foram bons. A doutrina cristã ensina que os demônios, devido à sua escolha contínua de rebelião, não buscam o arrependimento e estão comprometidos com o mal.

Geisler apresenta quatro razões fundamentais pelas quais não há possibilidade de redenção para os anjos caídos. Primeiro, ele destaca que a Bíblia enfatiza que Cristo veio para redimir a humanidade, não os anjos, sugerindo uma clara distinção entre as duas categorias. Segundo, ele argumenta que a cruz de Cristo é declarada como a fonte da salvação para os seres humanos e, ao mesmo tempo, como a fonte da condenação dos demônios. Terceiro, Geisler aponta que a Bíblia descreve o estado perdido dos demônios como final e eterno, enfatizando que eles estão reservados para o juízo final. Por último, ele menciona a argumentação de Tomás de Aquino, que enfatiza a imutabilidade dos anjos em seu conhecimento natural e natureza, tornando a redenção impossível, uma vez que a redenção envolveria uma mudança de mente. Essas razões convergem para uma visão amplamente aceita de que os anjos caídos não têm a possibilidade de redenção. O argumento de Kardec de que essa corrupção na natureza deles implica que nunca foram realmente bons não tem qualquer fundamento e a conclusão não segue das premissas (falácia non sequitur).

 • Alegação 12:

"E de que lhes serviria não manterem tal orgulho, uma vez que é inútil todo o arrependimento? O bem só poderia interessá-los se eles tivessem uma esperança de reabilitação, fosse qual fosse o seu preço. Assim não acontece, no entanto, e pois se perseveram no mal é porque lhes trancaram a porta da esperança."

Kardec repete a alegação de inutilidade do arrependimento dos demônios. Essa alegação é semelhante à alegação 7 e também deturpa a doutrina cristã, uma vez que os demônios, devido à sua natureza corrompida, não desejam o arrependimento. Portanto, não se trata de inutilidade, mas de escolha.


Parte terceira: demônios na concepção espírita

Na terceira parte, após apresentar esses argumentos defeituosos e tomar, com base neles, a questão por fechada contra a visão cristã, Kardec apresenta sua própria concepção sobre os demônios

Vamos analisá-la a partir de agora:

No Espiritismo, segundo Kardec, não existem entidades distintas como anjos ou demônios. Todos os seres inteligentes fazem parte de uma única criação divina, destinados à busca da perfeição e felicidade. Deus não lhes concedeu perfeição imediata, mas a oportunidade de alcançá-la através do próprio esforço. Os seres progridem encarnados ou no estado espiritual, atingindo o status de puros Espíritos ou "anjos" após o apogeu de seu desenvolvimento. A escala de progresso espiritual abrange desde a ignorância até o conhecimento, da maldade à bondade.

Diz Kardec:

"Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber, bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à ideia de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem."

A afirmação de Allan Kardec de que existem espíritos propensos ao mal e que podem ser denominados "demônios" no contexto do Espiritismo parece entrar em contradição com sua crítica à doutrina dos demônios no Cristianismo. Inicialmente, ele argumenta que Deus, sendo bom, não criaria criaturas más. No entanto, no Espiritismo, Kardec sugere que há espíritos ignorantes e maus desde o início, de modo que Deus os criou desse jeito, o que parece ser uma contradição.

Deus, na visão cristã, criou originalmente seres bons que depois caíram por sua própria escolha. No entanto, no Espiritismo, ele efetivamente cria espíritos que já são maus e propensos ao mal, o que pode ser visto como uma contradição em relação à sua crítica ao Cristianismo. Nessa concepção, os demônios não foram anjos bons que caíram pelo mau uso do livre arbítrio, mas já foram criados maus por Deus. Deste modo, sua crítica ao Cristianismo se aplica melhor à própria doutrina espírita do que à visão cristã.

A distinção que Kardec tenta fazer entre esses espíritos e os demônios cristãos, alegando que eles podem evoluir e progredir para o bem, é problemática. Se esses espíritos são capazes de "todos os malefícios aos ditos atribuídos [aos demônios]", isso coloca em dúvida a ideia de que eles são melhores ou têm uma natureza essencialmente diferente dos demônios cristãos. O fato de supostamente poderem evoluir não anula o fato de que, de acordo com a visão espírita, Deus efetivamente cria seres malignos, o que é uma contradição inerente à doutrina espírita.

Ele também diz:

"Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia, negligência, obstinação ou má vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as consequências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas consequências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurando então melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento. Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda assim, contra a vontade. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio, mas o primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio "

A visão de Kardec sobre os demônios como Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e sujeitos a um processo de evolução espiritual, reflete o contexto histórico e intelectual em que ele viveu, marcado pelo positivismo e pela crença no progresso. No entanto, essa visão levanta algumas questões críticas, e o próprio contexto do positivismo influenciou essa perspectiva.

O positivismo, uma corrente filosófica popular no século XIX, enfatizou o progresso, a ciência e a razão como motores do avanço da humanidade. O Espiritismo de Kardec, nascido nesse ambiente, incorporou elementos dessa visão, especialmente a ideia de progresso espiritual e moral como resultado do livre-arbítrio e do esforço pessoal. No entanto, o positivismo caiu grandemente em descrédito devido à sua visão simplista do progresso e à falta de fundamentação empírica sólida.

Críticos do positivismo argumentaram que sua visão do progresso era excessivamente otimista e desconsiderava as complexidades da sociedade e da natureza humana. Além disso, o Espiritismo de Kardec, com sua ênfase na evolução espiritual, compartilhava algumas dessas falhas, uma vez que a ideia de que Espíritos imperfeitos podem evoluir voluntariamente carece de evidências sólidas e não leva em consideração as barreiras reais para a mudança pessoal.

A rejeição do positivismo e suas ideias simplistas sobre o progresso contribuíram para a crítica do Espiritismo como uma doutrina baseada em suposições não comprovadas. A falta de comprovação empírica da reencarnação e da evolução espiritual enfraquece as alegações do Espiritismo e o torna suscetível a críticas. Portanto, é importante considerar essas questões críticas ao avaliar a visão espírita do "progresso" e da evolução espiritual à luz do contexto do positivismo em declínio.

Outro grande problema está na afirmação de Allan Kardec de que o progresso espiritual não é obrigatório e que Deus deseja que todos tenham mérito por suas ações, que é confrontada por uma contradição intrínseca à doutrina espírita. Isso ocorre porque o Espiritismo também ensina a existência de reencarnações compulsórias para Espíritos atrasados, que não têm a capacidade de fazer escolhas conscientes. Na Revista Espírita de novembro de 1862, é dito o seguinte:

"Observação – Eis um Espírito que, em razão de sua leviandade e pouco adiantamento, não suspeita da reencarnação. Quando lhe chegar o momento de retomar uma nova existência, que escolha poderá fazer? Evidentemente uma escolha em conformidade com seu caráter e com seus hábitos, a fim de gozar e não de expiar, até que seu Espírito se ache bastante desenvolvido para lhe compreender as conseqüências. É a história do garoto inexperiente, que se atira aturdidamente a todas as aventuras e que adquire experiência às próprias custas. Lembremos que, para os Espíritos atrasados, incapazes de fazer uma escolha com conhecimento de causa, há encarnações compulsórias." (o grifo é meu)

Na Revista Espírita de Junho de 1863, é dito o seguinte:

"A encarnação é, pois, uma necessidade para o Espírito que, realizando a sua missão providencial, trabalha seu próprio adiantamento pela atividade e pela inteligência, que deve desenvolver, a fim de prover à sua vida e ao seu bem-estar. Mas a encarnação torna-se uma punição quando o Espírito, não tendo feito o que devia, é constrangido a recomeçar sua tarefa, multiplicando penosas existências corporais por sua própria culpa. Um estudante não é graduado senão depois de ter passado por todas as classes." (o grifo é meu)

Essa contradição é problemática, pois, se as reencarnações compulsórias são uma realidade, então a afirmação de que o progresso espiritual é um ato de "espontânea vontade" e que todos têm a oportunidade de aceitar ou recusar os meios para progredir perde sua validade. Se alguns Espíritos são forçados a reencarnar sem escolha consciente, isso contradiz a ideia de que Deus quer que todos tenham mérito por suas ações, uma vez que alguns Espíritos parecem estar presos em um ciclo de reencarnações sem liberdade de escolha.

Além disso, a ideia de que Deus fornece constantemente os meios para o progresso, mas com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los, também é questionável quando se considera a existência de reencarnações compulsórias. Se o progresso espiritual é realmente uma questão de mérito e livre-arbítrio, a presença de reencarnações compulsórias parece ser uma intervenção que contradiz essa premissa.

Portanto, a contradição entre a afirmação de que o progresso não é obrigatório e a crença nas reencarnações compulsórias destaca a falta de consistência na doutrina espírita. Essa inconsistência levanta questões importantes sobre a coesão e a validade das crenças espíritas.

Kardec conclui:

"Por fim, a unidade da Criação, aliada à ideia de uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito, corresponde melhor à Justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privilégios."

O argumento de Kardec de que a unidade da Criação, onde anjos e seres humanos são estágios diferentes dos mesmos espíritos, é mais justo do que a criação de espécies diferentes com privilégios, é problemático quando examinado mais profundamente. Embora Kardec defenda a justiça divina, seu raciocínio pode levar a conclusões absurdas e contraditórias.

Primeiramente, a ideia de que Deus não deveria criar espécies diferentes com dotes naturais diversos com base em mérito ou justiça humana é problemática. Deus, sendo uma entidade onisciente e transcendental, pode ter razões e critérios para a diversidade de criação que estão além da nossa compreensão. A natureza e os propósitos divinos podem ser muito mais complexos do que podemos conceber. Portanto, afirmar que a criação de seres diferentes é injusta baseando-se apenas em nosso entendimento limitado pode ser uma simplificação excessiva.

Além disso, o próprio exemplo de Deus criando seres humanos racionais e animais irracionais contradiz o argumento de Kardec. Se seguirmos a lógica de que a criação de seres diferentes com dotes naturais diversos é injusta, então a própria existência, por exemplo, de seres humanos racionais em oposição a animais irracionais seria considerada uma arbitrariedade divina. Isso mostra como o raciocínio de Kardec pode levar a conclusões absurdas.

Quanto à possível objeção que um espírita pode levantar de que a reencarnação não acontece em animais, isso não resolve o problema, mas o amplia. Se, segundo a lógica de Kardec, a reencarnação é uma forma justa de evolução espiritual, seria mais uma injustiça divina restringir essa oportunidade apenas à espécie humana. O argumento de Kardec, portanto, cria um dilema ao tentar estabelecer critérios de justiça divina com base em nosso entendimento limitado e subjetivo. Em vez de resolver questões de justiça, ele gera contradições e absurdos na lógica da argumentação espírita.

"A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?"

O trecho de Kardec, ao criticar a doutrina tradicional sobre anjos, demônios e almas, alegando que ela implica em Deus sendo parcial e concedendo privilégios a alguns de seus "filhos", é problemático por diversas razões.

Primeiramente, essa lógica continua levando a conclusões absurdas, como já discutido anteriormente. Ao tentar aplicar critérios humanos limitados à natureza divina, Kardec não leva em consideração a complexidade dos propósitos divinos, criando assim um dilema de arbitrariedade divina.

Além disso, Kardec deturpa a doutrina cristã ao sugerir que demônios são "filhos de Deus" na doutrina cristã. Na verdade, a teologia cristã ensina que nem todos são filhos de Deus no mesmo sentido espiritual. O Novo Testamento faz distinção entre aqueles que escolhem seguir a vontade de Deus e aceitar Jesus Cristo como seu Salvador e aqueles que se afastam de Deus. Isso é evidenciado em versículos como João 1:12, que afirma: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus". Portanto, a ideia de que demônios são "filhos de Deus" na doutrina cristã é equivocada.

Kardec sugere que a doutrina cristã justificaria a preferência e a primogenitura. No entanto, a doutrina cristã não endossa tais práticas humanas. O cristianismo ensina princípios de igualdade e amor ao próximo, não discriminação com base em privilégios de nascimento. Além disso, essas práticas são muito anteriores ao advento do Cristianismo.

Em resumo, mais uma vez, o trecho de Kardec se baseia em uma interpretação deturpada da doutrina cristã e em uma lógica que leva a conclusões absurdas. Sua tentativa de criticar a teologia tradicional cria uma visão distorcida e não fundamentada das crenças religiosas, que carece de consistência e validade.


Conclusão

A análise crítica das alegações de Allan Kardec no contexto do Espiritismo revela sérias contradições e falta de fundamentação nas premissas espíritas. À luz de uma visão de mundo cristã e da lógica, as alegações espíritas apresentam problemas substanciais.

Kardec questiona a justiça divina e a natureza dos demônios, mas suas próprias respostas à questão não se sustentam. Além disso, a tentativa de Kardec de reinterpretar a natureza dos demônios em oposição ao Cristianismo tradicional carece de consistência e validade.

Em resumo, o Espiritismo levanta questões profundas e sérias contradições, que lançam dúvidas substanciais sobre a validade e a coerência de suas alegações. A visão de mundo cristã não se alinha com as doutrinas espíritas, e essas divergências destacam as deficiências fundamentais nas crenças do Espiritismo. Portanto, à luz dessa análise crítica, é legítimo concluir que as alegações espíritas são problemáticas, inconsistentes e não encontram sustentação na visão de mundo cristã. Podemos concluir que a tentativa de Kardec de mostrar que a visão cristã é inconsistente e de apresentar uma visão alternativa consistente fracassou.


Referências 

BIANCHI, Ugo; STEFON, Matt. Dualism | Definition, Religion, Examples, Significance, & Facts. Britannica.com, (em inglês). Disponível em: https://www.britannica.com. Acesso em: 28 out. 2023.

ERICKSON, Millard J. Teologia sistemática. Vida Nova, 2015.

GEISLER, Norman. Teologia sistematica. Td. Marcelo Gonçalves e Luís, 2010.

GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

JONES, David Albert. Angels: a very short introduction. Oxford University Press, 2010.

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática: a doutrina de Deus. Hagnos, 2003.


Os textos espíritas foram extraídos de:

KARDEC, Allan. O céu e o inferno, ou, a justiça divina segundo o espiritismo, tradução de Manuel Justiniano Quintão [PDF]. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1862, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

Refutação ao capítulo VIII de O Céu e o Inferno

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