sábado, 28 de outubro de 2023

Stephen Hawking e sua crítica ao teísmo


 

Há um conceito em estudos religiosos conhecido como "homo religiosus".

O que ele propõe é que o ser humano é natural inclinado à fé religiosa. Todo ser humano busca algum tipo de significado, transcendência, etc. Não é uma ideia incontroversa, mas eu a considero bastante sólida.

Essas divindades expressam bem essa necessidade humana. O culto sempre esteva na raiz da civilização humana. O tipo de culto mais comum era o culto às forças da natureza e aspectos da natureza humana. Povos do passado geralmente personificavam e cultivavam forças da natureza. Daí a origem desses panteões, com deuses representando o céu, o sol, a terra, o trovão, o mar, etc. Algumas religiões ainda refletem essa tendência, como as religiões de matriz africana, em que orixás personificam forças da natureza.

Na cultura greco-romana, essas religiões entraram em declínio, graças, entre outras coisas, às críticas dos filósofos. Por exemplo, Xenófanes observou que os deuses representados nos mitos limitavam as paixões humanas. Eles possuíam as falhas de um ser humano, mais especificamente, dos povos que os cultuavam. Além disso, ele também observou que os deuses se pareciam com esse povos até em sua aparência física. Por exemplo, os gregos cultivavam deuses brancos, os etíopes tinham deuses negros, os povos orientais tinham deuses com traços orientais. Xenófanes chegou a brincar que se vacas, cavalos ou leões pudessem desenhar e criar, eles criaram deuses com aparência de vacas, cavalos e leões, respectivamente. Ele concluiu que esses deuses foram inventados por esses povos.

Epicuro, o grande filósofo atomista, observou que a personificação e divinização de forças da natureza era um tapa buracos para a ignorância humana. Dizer que os raios eram lançados do céu por uma divindade ou que o trovão era o rugido de um deus era algo sem justificativa racional e que até impedia que as pessoas entendessem as verdadeiras leis que regiam a natureza.

Isso começou a mudar com Tales de Mileto. A partir daí, os aspectos da natureza passaram a ser investigados e as verdadeiras explicações para eles foram sendo encontradas. Como disse Epicuro: "Trovões podem ser produzidos de várias maneiras - só esteja certos dos mitos ficarem fora disto! E eles serão mantidos fora disto se as aparências forem corretamente perseguidas e estas forem consideradas como sinais do que não é observável."

Stephen Hawking, em seu livro O Grande Projeto, comete o erro de equiparar esses mitos ao teísmo (inclusive cristão) que ensina a existência de um único Deus transcendente.

Porém, essas críticas eram diferentes de uma defesa do ateísmo e não se aplicam a um Deus transcendente. O próprio Xenófanes disse: "Há um único Deus (...) em nada parecido com os mortais, seja em forma ou pensamento (...) que distante e sem esforço, governa tudo o que existe." Antes dele, Moisés já havia condenado o culto a aspectos da natureza como idolatria.

O Deus da Bíblia não é a personificação de forças da natureza, nem compartilha das imperfeições ou das falhas de caráter do homem.

O Werner Jaeger escreveu um texto bem interessante, justamente expondo essa diferença:

"Se compararmos essa hipótese do Eros criador do mundo com o Logos da explicação hebraica da criação, podemos observar uma profunda diferença nos pontos de vista dos dois povos. O Logos é a substancialização de uma propriedade intelectual ou do poder do Deus criador, que jaz fora do mundo e o traz à existência pela sua ordenação pessoal. Os deuses gregos jazem dentro do mundo; eles descendem da Terra e dos céus [...] são gerados pela força do Eros que também se situa dentro do mundo como uma força que tudo engendra. Assim eles estão sujeitos ao que devemos chamar de lei natural. [...] Quando o pensamento de Hesíodo finalmente possibilita uma via de pensamento verdadeiramente filosófica, o Divino é procurado dentro do mundo - não fora dele, como acontece na teologia-judaico cristã que se desenvolve a partir do livro de Gênesis."

(WERNER, Jaeger. The Theology of the Early Greek Philosophers, pág. 16-17; citado em LENNOX, 2015)


Referência

LENNOX, John. Deus e Stephen Hawking: de quem é o projeto afinal?, Londrina: IDE, 2015

Nenhum comentário:

Postar um comentário