domingo, 5 de novembro de 2023

Refutação ao capítulo VIII de O Céu e o Inferno


Refutação ao Cap. VIII sobre Anjos

O Espiritismo, uma doutrina que se baseia na comunicação com espíritos e na reencarnação, propõe uma perspectiva diferente sobre questões espirituais e a existência de seres celestiais, como os anjos. Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, apresentou uma série de argumentos e questionamentos sobre os anjos em sua obra. No entanto, é importante abordar essas questões com uma análise crítica e considerar como se comparam às crenças cristãs tradicionais.

A existência dos anjos, conforme tradição cristã os enxerga, está enraizada em evidências históricas e no testemunho de Jesus a favor da autoridade e infalibilidade das Escrituras. Os ensinamentos cristãos sustentam a existência de seres espirituais que servem como mensageiros divinos, guardiões e servos de Deus. Além disso, a crença na existência dos anjos é fortalecida pelo testemunho interior do Espírito Santo, que é a base do conhecimento das coisas espirituais e da fé cristã.

Neste artigo, examinaremos criticamente os argumentos apresentados por Allan Kardec em relação à existência e natureza dos anjos, bem como suas objeções às crenças cristãs tradicionais, apresentando refutações a elas. Abordaremos cada um desses argumentos, destacando as inconsistências e contradições que surgem quando são analisados cuidadosamente. Além disso, consideraremos como a visão cristã, embasada na autoridade histórica e no testemunho interior do Espírito de Deus, pode ser mais sólida e confiável do que a perspectiva espírita.


Alegação 1: Suposta vida totalmente material

"De tal sistema decorrem várias dificuldades capitais: Em primeiro lugar, que vida é essa puramente material? Será a da matéria bruta? Mas a matéria bruta é inanimada e não tem vida por si mesma. Acaso referir-se-á aos animais e às plantas? Neste suposto seria uma quarta ordem na Criação, pois não se pode negar que no animal inteligente algo há de mais que numa planta, e nesta, que numa simples pedra."

A existência de vida totalmente material é irrelevante para determinar a existência ou não dos anjos. A existência de seres espirituais não depende da presença ou ausência de vida material. Portanto, essa objeção não afeta a crença na existência de anjos.

A objeção levantada por Kardec sobre a natureza da vida material não impacta a questão da existência de anjos. A crença nos anjos é baseada em convicções espirituais e religiosas que transcendem as considerações sobre a vida material. Os anjos são frequentemente concebidos como seres espirituais que existem independentemente da vida material

Portanto, a existência ou não de vida material não influencia a crença na existência de anjos, uma vez que essa crença está enraizada em domínios espirituais e religiosos que não são afetados pela natureza da vida material.


Alegação 2: Suposta criação há seis mil anos como dogma

"um dos dogmas fundamentais diz que a Terra, os animais, as plantas, o Sol e as estrelas e até a luz foram criados do nada, há seis mil anos. Antes dessa época não havia, portanto, criatura humana nem corpórea — o que importa dizer que no decurso da eternidade a obra divina jazia imperfeita."

O doutrina da criação da Terra e do universo há apenas seis mil anos não é uma crença universal no Cristianismo. Muitos cristãos, incluindo protestantes e católicos, aceitam uma criação mais antiga. A Bíblia em nenhum lugar diz que a Terra foi criada há apenas seis mil anos.

Além disso, ao longo da história do Cristianismo, muitos teólogos antigos não interpretaram a narrativa da criação em Gênesis como tendo dias de 24 horas. Portanto, a ideia de que a criação ocorreu há exatamente seis mil anos é uma interpretação específica, e não uma crença universal na tradição cristã.


Alegação 3: A igreja condenava a ciência

"É artigo de fé capital a criação do universo há seis mil anos, tanto que há pouco ainda era a Ciência anatematizada por destruir a cronologia bíblica, provando maior ancianidade da Terra e de seus habitantes."

É um mito que a Igreja condenava a ciência. Na verdade, ao longo da história, a igreja católica e as igrejas protestantes  desempenharam um papel importante no apoio e na promoção da ciência. Muitos cientistas notáveis, como Copérnico e Mendel, eram religiosos e membros do clero. A igreja frequentemente incentivava o estudo e a investigação científica como uma maneira de compreender melhor a criação de Deus.

Além disso, historiadores contemporâneos têm reexaminado o suposto conflito entre ciência e religião e descobriram que as narrativas tradicionais de hostilidade não refletem a complexidade da relação entre essas duas esferas. A maioria dos confrontos entre cientistas e a Igreja era motivada por questões filosóficas e políticas, além de divergências religiosas, em vez de meros conflitos entre fé e razão.

Hoje, a igreja católica e muitas outras denominações religiosas reconhecem a importância da ciência e buscam integrar a fé com a compreensão científica do mundo. Portanto, a ideia de que a Igreja condenava a ciência não é sustentada pela história e não reflete a relação mais harmoniosa entre ciência e religião que existe atualmente.


Alegação 4: Suposta eternidade do universo e do tempo

"Por começo dos tempos só podemos inferir a eternidade transcorrida, visto ser o tempo infinito como o Espaço, sem começo nem fim. Esta expressão, começo dos tempos, é antes uma figura, que implica a ideia de uma anterioridade ilimitada. O concílio de Latrão acredita, pois, firmemente, que as criaturas espirituais como as corpóreas foram simultaneamente formadas e tiradas em conjunto do nada, numa época indeterminada, no passado. A que fica reduzido, assim, o texto bíblico que data a Criação de seis mil dos nossos anos? E, ainda que se admita seja tal o começo do universo visível, esse não é seguramente o começo dos tempos. Em qual crer: no concílio ou na Bíblia?"

Kardec comete um erro ao presumir a eternidade do universo. A teoria científica mais aceita atualmente, com base em evidências como a expansão do universo e a radiação cósmica de fundo, sugere que o universo teve um começo conhecido como o "Big Bang." Essa teoria postula que o universo não é eterno, mas teve um início específico no passado.

Portanto, é um equívoco atribuir a Bíblia a ideia da eternidade do universo, quando, na verdade, é Kardec que se desvia das descobertas científicas atuais ao presumir erroneamente a eternidade do universo. A compreensão moderna do cosmos se baseia em evidências científicas sólidas e amplamente aceitas, que indicam um início para o universo, em contraste com a ideia de uma eternidade do universo.


Alegação 5: A alma não está destinada a estar ligada ao corpo, porque este último morre

"Ora, se o destino essencial da alma é estar unida ao corpo, esta união constitui o estado normal, o desígnio, o fim, por isso que é o seu destino. Entretanto, a alma é imortal, e o corpo não; a união daquela com este só se realiza uma vez, segundo a Igreja, e ainda que durasse um século, nada seria em relação à eternidade."

Kardec parece ignorar que, de acordo com o Cristianismo, a morte não fazia parte do plano original de Deus, mas foi uma consequência do pecado do homem. A narrativa bíblica apresenta que a morte foi introduzida no mundo devido à desobediência de Adão e Eva no Jardim do Éden. Assim, a morte física não estava originalmente destinada a fazer parte da experiência humana, mas resultou da queda da humanidade.

Além disso, o Cristianismo ensina a crença na ressurreição, que é uma parte central da fé. Os seguidores cristãos acreditam que, por meio da ressurreição de Jesus Cristo, Deus vai reverter a morte e conceder vida eterna aos crentes. Essa crença fundamental refuta a ideia de que a alma não está destinada a estar unida ao corpo, uma vez que a ressurreição envolve a restauração do corpo físico.

Portanto, a perspectiva cristã sobre a morte e a ressurreição contradiz a afirmação de Kardec de que a alma não está destinada a estar unida ao corpo, pois a ressurreição é vista como a restauração desse relacionamento.


Alegação 6: Anjos não faziam nada antes da criação do homem

"O quadro hierárquico dos anjos nos mostra que várias ordens têm, nas suas atribuições, o governo físico do mundo e da humanidade, para cujo fim foram criados. Mas, segundo o Gênesis, o mundo físico e a humanidade não existem senão há seis mil anos; e o que faziam, pois, tais anjos, anteriormente a essa era, durante a eternidade, quando não existia o objetivo das suas ocupações?"

Os anjos sempre cultuaram a Deus, independentemente do que faziam antes da criação do homem. A natureza espiritual dos anjos é essencialmente voltada para a adoração e serviço a Deus. A questão do que os anjos faziam anteriormente é, na verdade, irrelevante para determinar sua existência ou natureza espiritual.

Kardec comete o erro de focar em questões secundárias em sua objeção ao questionar o que os anjos faziam antes da criação do homem. A natureza dos anjos como seres espirituais que servem a Deus é bem estabelecida na teologia religiosa e não depende de suas atividades prévias. Os anjos são frequentemente descritos como mensageiros de Deus e seres que glorificam o Criador em suas funções celestiais.

Portanto, a ênfase de Kardec em questões secundárias relacionadas às atividades dos anjos antes da criação do homem não tem impacto na compreensão geral dos anjos como seres espirituais que servem e adoram a Deus. Sua existência e natureza espiritual são fundamentais para a teologia religiosa, independentemente de suas atividades específicas anteriores à criação humana.


Alegação 7: Deus supostamente estaria sem adoradores por toda a eternidade antes da criação dos anjos

"E teriam eles sido criados de toda a eternidade? Assim deve ser, uma vez que servem à glorificação do Todo-Poderoso. Mas, criando-os numa época qualquer determinada, Deus ficaria até então, isto é, durante uma eternidade, sem adoradores."

Novamente, Kardec comete o erro de presumir a eternidade do universo, que vai contra as teorias científicas contemporâneas. Além disso, a asseidade de Deus é um conceito fundamental na teologia, significando que Deus é autoexistente e independente de qualquer outra entidade ou criação. Ele não depende de adoradores para ser quem é, pois sua natureza divina e soberana transcende qualquer necessidade de adoração.

A presunção de que Deus necessitaria de adoradores durante uma eternidade não considera a natureza divina de Deus e sua independência absoluta. A adoração humana não é uma condição prévia para a existência de Deus, mas é uma resposta de reconhecimento da grandeza divina por parte da criação. A soberania de Deus é inabalável e não se baseia em necessidades humanas.

Portanto, a ideia de que Deus ficaria sem adoradores durante uma eternidade é um equívoco que não leva em conta a asseidade de Deus e sua natureza divina. A presunção de Kardec não está alinhada com a compreensão teológica da divindade.


Alegação 8: Supostas ideias inatas do homem, não adquiridas pelos sentidos

"Receber as ideias pelos sentidos é, segundo o eminente teólogo, uma condição inerente à natureza humana; mas ele esquece as ideias inatas, as faculdades por vezes tão transcendentes, a intuição das coisas que a criança traz do berço, não devidas a quaisquer ensinos. Por meio de quais sentidos, jovens pastores, naturais calculistas, admiração dos sábios, adquirem ideias necessárias à resolução quase instantânea dos mais complicados problemas? Outro tanto pode dizer-se de músicos, pintores e filólogos precoces."

A ideia de ideias inatas e conhecimentos inerentes, conforme concebida pelo espiritismo, é carente de base sólida e não pode ser comprovada. Kardec não fornece evidências convincentes para essa afirmação, e a ideia de ideias inatas é amplamente debatida na filosofia e na psicologia.

Além disso, nas áreas da psicologia e da neurociência, não há evidências sólidas que confirmem a existência desse tipo ideias inatas ou conhecimento inerente. O desenvolvimento cognitivo humano é amplamente explicado em termos de processos de aprendizado, adaptação e socialização.


Alegação 9: A alma de uma criança morta não teria nenhuma ideia

"Os conhecimentos dos anjos não resultam da indução e do raciocínio”; têm-nos porque são anjos, sem necessidade de aprendê-los, pois tais foram por Deus criados: quanto à alma, essa deve aprender. Mas se a alma só recebe as ideias por meio dos órgãos corporais, que ideias pode ter a alma de uma criança morta ao fim de alguns dias, se admitirmos com a Igreja que essa alma não renasce?'

A capacidade da alma de uma criança morta de ter ideias não é relevante para a questão da existência de anjos. A objeção de Kardec não aborda a questão central da existência de seres espirituais e sua relação com os seres humanos.

A discussão sobre a existência de anjos e suas características transcende a questão da capacidade das almas das crianças mortas de terem ideias. A existência de anjos é uma questão que envolve considerações teológicas, espirituais e metafísicas mais profundas, independentemente das capacidades das almas humanas após a morte.

Portanto, a objeção de Kardec não aborda a questão central da existência de seres espirituais como anjos e como eles se relacionam com os seres humanos. A discussão sobre a existência de anjos é uma questão separada e complexa, que vai além da capacidade das almas de crianças falecidas de terem ideias.



Alegação 10: Se não há reencarnação, a alma permanece medíocre por toda a eternidade

"Aqui reponta uma questão vital, qual a de saber-se se a alma pode adquirir conhecimentos após a morte do corpo. Se uma vez liberta do corpo não pode adquirir novos conhecimentos, a alma da criança, do selvagem, do imbecil, do idiota ou do ignorante permanecerá tal qual era no momento da morte, condenada à nulidade por todo o sempre. Mas se, ao contrário, ela adquire novos conhecimentos depois da vida atual, então, é que pode progredir."

A doutrina espírita de reencarnação contradiz o conceito cristão de que Deus santifica e aperfeiçoa o homem. De acordo com a crença cristã, é Deus quem santifica e aprimora o homem por meio da graça divina e do poder redentor de Jesus Cristo. A redenção e a santificação são centrais na fé cristã, e a obra de Jesus é vista como a chave para a reconciliação e a transformação espiritual da humanidade. Desse modo, ninguém fica condenado à "nulidade" como Kardec erroneamente afirma.

A reencarnação, como ensinada na doutrina espírita, não é um ensinamento cristão e não é compatível com a crença na redenção divina. A ideia de reencarnação sugere um ciclo contínuo de vidas terrenas e evolução espiritual através de múltiplas encarnações, o que não se alinha com a visão cristã de redenção, salvação e aperfeiçoamento pela graça de Deus.

Portanto, a doutrina espírita da reencarnação é incompatível com a crença cristã na obra redentora de Deus e a santificação do homem por meio de Cristo. Essas são perspectivas teológicas divergentes em relação ao destino e à evolução espiritual da humanidade.



Alegação 11: A criação de seres perfeitos supostamente contradiz a justiça de Deus

"Progredindo a alma, qual o limite do progresso? Não há razão para não atingir por ele o grau dos anjos ou puros Espíritos. Ora, com tal possibilidade não se justificaria a criação de seres especiais e privilegiados, isentos de qualquer labor, gozando incondicionalmente de eterna felicidade, ao passo que outros seres menos favorecidos só obtêm essa felicidade a troco de longos, de cruéis sofrimentos e rudes provas. Sem dúvida que Deus poderia ter assim determinado, mas, admitindo-lhe o infinito de perfeição sem o qual não fora Deus, força é admitir que coisa alguma criaria inutilmente, desmentindo a sua justiça e bondade soberanas."

A presunção de que precisamos conhecer os propósitos de Deus para entender a criação de seres diferentes é injustificada. A soberania de Deus implica que Ele age de acordo com Sua vontade, e Seus motivos podem estar além da nossa compreensão limitada. Deus é considerado como o Ser supremo, cujas ações são guiadas por Sua sabedoria infinita e amor divino.

A falta de conhecimento sobre os propósitos divinos não implica que Deus tenha agido sem motivo ou de maneira injusta. Pelo contrário, a crença religiosa frequentemente pressupõe que Deus age de maneira justa e de acordo com Seus planos divinos, mesmo que não compreendamos completamente esses planos.

Nossa limitação de entendimento não define ou julga as ações de Deus, uma vez que Sua natureza transcende nossa capacidade de compreensão. Portanto, é injustificado presumir que precisamos conhecer todos os propósitos de Deus para aceitar a criação de seres diferentes. A fé muitas vezes envolve a confiança na sabedoria e na justiça divina, mesmo quando não temos total clareza sobre os motivos por trás das ações de Deus.

Além disso, ao contrário do que Kardec afirma, Deus não criou o homem para passar por essas dificuldades que seus anjos não enfrentam. Ele também nos criou como seres puros e bons. Porém, o mau uso do livre arbítrio corrompeu o homem, por precisamos que nossa comunhão com Deus seja restaurada.


Alegação 12: Comparar Deus a um rei supostamente o rebaixaria

"E não será rebaixar a Divindade confrontá-la com o fausto dos soberanos da Terra? Essa ideia, inculcada no espírito das massas ignorantes, falseia a opinião de sua verdadeira grandeza. Sempre Deus reduzido às mesquinhas proporções da humanidade! Atribuir-lhe, como necessidade, milhões de adoradores, perenemente genuflexos ou de pé diante dele, é emprestar-lhe vaidade e fraqueza próprias dos orgulhosos déspotas do Oriente! E que é que faz os soberanos verdadeiramente grandes?"

A comparação de Kardec sobre Deus com um rei não tem o propósito de retratar Deus como um monarca terreno com imperfeições humanas, mas sim de destacar os aspectos de poder, majestade e soberania divina. Nesse contexto, a analogia pretende enfatizar que Deus é considerado o "Rei dos reis", indicando a suprema autoridade e controle sobre todas as coisas. Essa comparação não deve ser entendida de forma literal, mas sim como uma tentativa de descrever a grandiosidade de Deus, que está além da compreensão humana.

Assim, ao usar a analogia com um rei, Kardec busca transmitir a ideia de que Deus é soberano sobre o universo e detentor de um poder supremo, mas não implica que Deus compartilhe as imperfeições ou limitações associadas aos monarcas terrenos. É importante entender essa comparação no contexto do poder divino e da transcendência de Deus, e não como uma representação literal de Sua natureza.



Alegação 13: Doutrina espírita da união da alma com o corpo

"A respeito da união da alma com o corpo, o Espiritismo professa uma doutrina infinitamente mais espiritualista, para não dizer menos materialista, tendo ademais a seu favor a conformidade com a observação e o destino da alma. Ele ensina-nos que a alma é independente do corpo, não passando este de temporário invólucro: a espiritualidade é-lhe a essência, e a sua vida normal é a vida espiritual. O corpo é apenas instrumento da alma para exercício das suas faculdades nas relações com o mundo material; separada desse corpo, goza dessas faculdades mais livre e altamente."

A doutrina espírita da união da alma com o corpo carece de evidências sólidas e fundamentação. A observação não oferece suporte à ideia de que a alma seja independente do corpo e que o corpo seja apenas um instrumento temporário. Essa é uma crença que se baseia na filosofia espiritualista, não em dados empíricos.

Além disso, é importante observar que Kardec não apresenta nenhuma evidência concreta em apoio a essa crença. Não se baseia em dados científicos, filosóficos ou empíricos sólidos que respaldem a ideia de que a alma é independente do corpo e que o corpo é apenas um instrumento temporário para a alma. Ele apenas afirma isso sem apresentar a mínima evidência.

Portanto, a doutrina espírita da união da alma com o corpo é uma crença que carece de base sólida e evidências que a sustentem. É uma perspectiva filosófica e espiritual, mas não é apoiada por observações empíricas, ao contrário do que afirma Kardec.



Anjos segundo o espiritismo

A partir de agora, analisaremos a perspectiva do próprio Kardec sobre o assunto, expondo as incoerências e contradições nessa visão.

1) Deus não privilegiaria ninguém

"Deus não aquinhoa melhor a uns do que a outros, porquanto é justo, e, visto serem todos seus filhos, não tem predileções."

Kardec parece sugerir que Deus não privilegia ninguém com base na ideia de que todos são filhos de Deus contradiz a afirmação de Jesus de que nem todos são considerados filhos de Deus, de acordo com o Cristianismo. A filiação divina, na tradição cristã, envolve um relacionamento espiritual e redentor com Deus, que é alcançado por meio da fé e da aceitação de Jesus Cristo como Salvador. Não é uma filiação universal e automática que se aplica a todos indiscriminadamente. Quando o homem pecou, deixou de ser seu filho, sendo essa filiação restaurada apenas por meio da fé.

De acordo com os ensinamentos de Jesus, a filiação divina está vinculada ao arrependimento, à fé e ao seguimento de Deus. Portanto, a ideia de que todos são automaticamente filhos de Deus contradiz os princípios fundamentais do Cristianismo. A filiação divina é vista como um relacionamento pessoal e redentor que requer uma decisão consciente e espiritual por parte do indivíduo.

A presunção de que precisamos conhecer os propósitos de Deus para entender a criação de seres diferentes é injustificada, como mencionado anteriormente. A limitação de nosso conhecimento sobre os planos divinos não implica que Deus seja injusto ao criar seres diferentes, como anjos e seres humanos. A fé frequentemente envolve a confiança na sabedoria e justiça divina, mesmo quando não compreendemos completamente os motivos por trás das ações de Deus.


2) Contradição sobre criação de seres simples e ignorantes que se tornam maus, embora eles possam apenas progredir

"As almas ou Espíritos são criados simples e ignorantes, isto é, sem conhecimentos nem consciência do bem e do mal, porém, aptos para adquirir o que lhes falta. (...) Conseguintemente, Deus não criou o mal; todas as suas leis são para o bem, e foi o homem que criou esse mal, divorciando-se dessas leis; se ele as observasse escrupulosamente, jamais se desviaria do bom caminho."

A contradição na doutrina de Kardec sobre a criação de seres simples e ignorantes que se tornam maus é evidente. Isso acontece e contraria sua própria crença na evolução espiritual, onde os espíritos apenas evoluem. A ideia de que seres simples e ignorantes se tornariam maus parece contraditória com seu próprio sistema de crenças. A mudança de seres inicialmente simples e ignorantes para seres maus é uma forma de degradação moral e espiritual, ou seja, uma involução em vez de evolução. Isso sugere que, em vez de progredir moral e espiritualmente, esses seres estariam regredindo em termos de comportamento e moralidade.

Em O Livro dos Espíritos, os espíritos em sua origem são até mesmo comparados a crianças. Kardec faz seguinte pergunta "segundo o que acabais de dizer, os Espíritos, em sua origem, seriam como as crianças, ignorantes e inexperientes, só adquirindo pouco a pouco os conhecimentos de que carecem com o percorrerem as diferentes fases da vida?"

O suposto espírito responde:

“Sim, a comparação é boa. A criança rebelde se conserva ignorante e imperfeita. Seu aproveitamento depende da sua maior ou menor docilidade. Mas a vida do homem tem termo, ao passo que a dos Espíritos se prolonga ao infinito.”

Se não é involução que espíritos ignorantes como crianças se tornem maus e obsessores, eu não sei o que mais séria.

Isso levanta questões sobre a consistência da doutrina espírita, uma vez que há uma contradição entre a crença na evolução espiritual contínua dos espíritos e a ideia de que alguns espíritos podem, de alguma forma, se tornar maus. A evolução espiritual é uma das principais crenças na doutrina espírita, e a ideia de involução contradiria esse princípio.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta "podem os Espíritos degenerar?", ao que o suposto espírito superior responde:

“Não; à medida que avançam, compreendem o que os distanciava da perfeição. Concluindo uma prova, o Espírito fica com a ciência que daí lhe veio e não a esquece. Pode permanecer estacionário, mas não retrograda."

Portanto, vemos uma séria contradição na doutrina de Kardec.


3) Humanidade em vários mundos

"A humanidade não se limita à Terra: habita inúmeros mundos, que no Espaço circulam, já habitou os desaparecidos, e habitará os que se formarem. Tendo-a criado de toda a eternidade, Deus jamais cessa de criá-la. Muito antes que a Terra existisse e por mais remota que a suponhamos, outros mundos havia, nos quais Espíritos encarnados percorreram as mesmas fases que ora percorrem os de mais recente formação, atingindo seu fim antes mesmo que houvéramos saído das mãos do Criador."

A noção de que a humanidade habita inúmeros mundos é contraditória com a ciência atual. Muitos planetas não têm as condições necessárias para sustentar qualquer forma de vida. Por exemplo, Vênus é um planeta com uma atmosfera extremamente hostil, com temperaturas que podem derreter chumbo. Marte, embora seja um dos planetas mais estudados em busca de vida, não apresenta evidências claras de vida como a conhecemos. Além disso, a busca por vida extraterrestre baseia-se em critérios específicos, como a habitabilidade, que são rigorosamente avaliados. A ideia de que a humanidade existe em muitos mundos é uma especulação não comprovada e contradiz as evidências científicas disponíveis.

Alguns podem alegar que se torna de vida espiritual, mas não é o que está descrito nas obras de Kardec. Por exemplo, na Revista Espírita de março de 1858, é dito o seguinte:

"Segundo os Espíritos, o planeta Marte seria ainda menos adiantado que a Terra. Os Espíritos ali encarnados parecem pertencer quase que exclusivamente à nona classe, a dos Espíritos impuros, de sorte que o primeiro quadro, que demos acima, seria a imagem desse mundo."

Percebendo o problema com essas afirmações, o tradutor acrescentou uns nota, alegando que essa era apenas uma hipótese de Kardec, embora o fato dele evocar o testemunho dos espíritos ateste contra essa possibilidade.

Em O Livro dos Espíritos, Kardec classifica espíritos de nona classe como de terceira ordem, e dá a eles as seguintes características:

"Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes."

Na Revista Espírita de outubro de 1860, o suposto espírito Georges diz:

"Marte é um planeta inferior à Terra, da qual é grosseiro esboço; não é necessário habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos mais grosseiros demônios. Os seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma beleza; têm todos os instintos do homem, sem a nobreza da bondade." (o grifo é meu)

Ele também diz:

"Entregues às necessidades materiais, comem, bebem, batem-se, acasalam-se.."

E:

"A [vida] deles é curta como a dos insetos efemeros. Os homens, que são apenas matéria, desaparecem após curta evolução. Deus tem horror ao mal e só o tolera como servindo de principio ao bem. Ele abrevia o seu reino, sobre o qual triunfa a ressurreição." (o grifo é meu)

Ele fala até em alimentação e casas em Marte:

"Sem indústria, sem invenções, os habitantes de Marte consomem a vida à procura de alimento. Suas grosseiras habitações, baixas como um casebre, são repugnantes pela incuria e pela desordem que nelas reinam."

Na Revista Espírita de agosto de 1862, Georges fala sobre Vênus:

"O planeta Vênus é o ponto intermediário entre Mercúrio e Júpiter. Seus habitantes têm a mesma conformação física que a vossa; a maior ou menor beleza e idealidade nas formas é a única diferença entre os seres criados."

Ele fala até em alimentação e vestimentas para esses seres:

"Seus habitantes só se alimentam de frutas e de laticínios; desconhecem o bárbaro costume de comerem cadáveres de animais, ferocidade que não existe senão nos planetas inferiores.

(...)

As vestimentas são uniformes; grandes túnicas brancas envolvem o corpo com pregas harmoniosas, sem o desnaturarem. Tudo é fácil a esses seres que só desejam a Deus e que, despojados dos interesses grosseiros, vivem simples e quase luminosos."

O suposto espírito Georges afirma que tem conhecimento de Vênus porque esteve lá:

"Sou errante, mas inspirado por Espíritos superiores. Fui enviado em missão a Vênus."

Kardec observa que isso está de acordo com o ensino de outros espírito: "estamos satisfeitos em constatar que concorda com o que já nos foi dito, embora com menor precisão".

Na Revista Espírita de junho de 1869, é dito que "nos mundos de Marte e de Vênus encontrarias raças cujas formas se aproximam mais das que existem na Terra". Essa afirmação é de Humphry Davy. Na Revista Espírita é dito que esse senhor "foi um dos grandes apóstolos do progresso. O Espiritismo não poderia ter melhores auxiliares do que no testemunho indireto desses sábios ilustres que, pelo estudo da Natureza, chegaram à descoberta de novas verdades."


17) Espíritos que criados por toda a eternidade

"Realiza-se assim a grande lei de unidade da Criação; Deus nunca esteve inativo e sempre teve puros Espíritos, experimentados e esclarecidos, para transmissão de suas ordens e direção do universo, desde o governo dos mundos até os mais ínfimos detalhes."

A afirmação de Kardec de que Deus criou puros Espíritos desde toda a eternidade contradiz a ciência, que sugere um universo finito com um início, o Big Bang. A ideia de que a criação é eterna pode ser uma crença religiosa, mas não é uma afirmação científica apoiada por evidências.

De acordo com a teoria científica mais aceita atualmente, o universo teve um começo conhecido como o Big Bang, que ocorreu há cerca de 13,8 bilhões de anos. Essa teoria é respaldada por uma ampla gama de evidências observacionais, incluindo a expansão do universo e a radiação cósmica de fundo. Portanto, a visão científica predominante é que o universo não é eterno, mas sim teve um início definido.

A afirmação de Kardec de que Deus criou espíritos desde toda a eternidade é uma crença religiosa, mas não é uma afirmação científica respaldada por evidências empíricas. A ciência se baseia em métodos de investigação e observação que não encontraram evidências de criação eterna, e, pelo contrário, indicam um início finito do universo.

Portanto, a afirmação de Kardec é incompatível com a visão científica atual sobre a origem do universo e sua história. Essa é uma das áreas onde crenças religiosas e científicas podem divergir.


Conclusão

À luz da análise crítica dos argumentos de Allan Kardec sobre os anjos, fica evidente que suas perspectivas carecem da solidez e consistência que as crenças cristãs tradicionais oferecem. O Espiritismo propõe uma visão única e desafiadora, mas quando confrontada com os alicerces do cristianismo, suas bases parecem vacilar.

A visão cristã sobre a existência e natureza dos anjos se fundamenta em sólidas bases históricas, evidências e testemunhos que remontam a séculos. Os ensinamentos de Jesus, que afirmou a autoridade e a infalibilidade das Escrituras, reforçam a crença na existência de seres celestiais. Além disso, a fé cristã se enraíza no testemunho interior do Espírito Santo, que guia os crentes em seu conhecimento das coisas espirituais.

Por outro lado, Kardec levanta questionamentos e objeções que, quando examinados com rigor, revelam inconsistências e contradições.

Em última análise, a visão cristã permanece sólida e confiável. As crenças cristãs sobre a existência dos anjos são baseadas em testemunhos históricos, autoridade espiritual e uma rica tradição de fé que perdura ao longo dos séculos.


Referências

ERICKSON, Millard J. Teologia sistemática. Vida Nova, 2015.

GEISLER, Norman. Teologia sistematica. Td. Marcelo Gonçalves e Luís, 2010.

NUMBERS, Ronald L. Terra Plana, Galileu na prisão e outros mitos sobre ciência e religião. Thomas Nelson Brasil, 2020.


Textos espíritas extraídos de:

KARDEC, Allan. O céu e o inferno, ou, a justiça divina segundo o espiritismo, tradução de Manuel Justiniano Quintão [PDF]. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. O livro dos espíritos, tradução de Guillon Ribeiro [PDF]. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1858, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1862, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1869, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2005.

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