sábado, 28 de outubro de 2023

Refutação ao capítulo IX de "O Céu e o Inferno", de Kardec


O Espiritismo, em seu esforço para redefinir o Cristianismo, tenta mudar o conceito de céu, inferno, anjos e demônios. Essa é a empreitada de Allan Kardec no livro O Céu e o Inferno.

No capítulo IX, o foco de Kardec são os demônios. O capítulo é dividido em três partes. Na primeira, ele descreve aquela que ele acha que é a origem da doutrina dos demônios. Na segunda parte, ele tenta refutar a visão cristã a respeito do tema. Na terceira parte, ele apresenta a visão espírita.

O presente artigo visa apresentar as contradições, as falácias e as incoerências que tornam fracassada essa iniciativa espírita de apresentar uma visão alternativa dos demônios.


Parte Primeira: supostas origens da doutrina dos demônios

A primeira parte argumenta que a origem da doutrina dos demônios remonta à influência da mitologia persa. Existe um grande furo nessa teoria que Kardec não levou em consideração: o Cristianismo não é dualista. Na mitologia persa, há duas forças co-eternas e equivalentes em conflito.

Segundo a Enciclopédia Britânica, o dualismo é "a doutrina de que o mundo (ou realidade) consiste em dois princípios básicos, opostos e irredutíveis que explicam tudo o que existe."

Diz Kardec:

"O duplo princípio do bem e do mal foi, durante muitos séculos, e sob vários nomes, a base de todas as crenças religiosas. Vemo-lo assim sintetizado em Oromaze e Arimane entre os persas, em Jeová e Satã entre os hebreus. Todavia, como todo soberano deve ter ministros, as religiões geralmente admitiram potências secundárias, ou bons e maus gênios. Os pagãos fizeram deles individualidades com a denominação genérica de deuses e deram-lhes atribuições especiais para o bem e para o mal, para os vícios e para as virtudes. Os cristãos e os muçulmanos herdaram dos hebreus os anjos e os demônios."

Porém, essa visão sobre a origem da doutrina dos anjos e demônios não se coaduna com os fatos. Conforme explica o teólogo Millard Erickson, "o ensino bíblico sobre a criação não permite qualquer tipo de dualismo. O Criador é único: ele é o único que trouxe a realidade à existência. Assim, a ideia de um segmento da criação inerentemente maligno, que tem sua origem em algum ser maligno poderoso, como o diabo, é rejeitada. Embora o diabo possa modificar ou corromper o material criado, ele não pode trazer nada à existência. Além disso, porque Deus é responsável pela origem de tudo, não existe nenhum segmento neutro da criação desprovido de significado espiritual. Assim, não há divisão da realidade entre o inerentemente bom e o mau, nem entre o sagrado, aquilo que é espiritualmente significativo, e o secular, aquilo que é espiritualmente indiferente."

A visão cristã de Deus e Satanás difere substancialmente da mitologia persa que envolve Spenta Manyu (ou Ahura Mazda em algumas versões) e Angra Mainyu. No Cristianismo, Deus é concebido como o Ser supremo, todo-poderoso e benevolente, criador do universo e fonte de amor e justiça. Ele é visto como um Deus de misericórdia, oferecendo a salvação e redenção a seus seguidores. No entanto, é importante ressaltar que, na teologia cristã, Deus é único e eterno, não compartilhando sua divindade com nenhuma outra entidade. Ele é o criador e sustentador de todas as coisas, e sua autoridade é absoluta.

Em contraste, Satanás não é uma força coeterna ou equivalente a Deus no Cristianismo. Ele é uma criatura, originalmente um anjo criado por Deus, que se rebelou contra sua autoridade. Satanás é, portanto, uma criação de Deus, e sua existência está dentro dos limites estabelecidos por Deus. Sua oposição a Deus é uma escolha voluntária, mas ele não é uma figura divina equiparada a Deus.

Conforme explica David Albert Jones:

"O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo têm muito em comum no que dizem sobre Satanás. Todos aceitam que tal criatura existe. Todos veem Satanás como o inimigo da raça humana. Todos ensinam que Satanás já foi bom e caiu por sua própria vontade. Ninguém faz de Satanás um deus maligno. Para as religiões abraâmicas existe apenas um Deus, e Deus é bom. Pensar que Satanás equivale à personificação de todo o mal é exagerar a sua importância. O Satanás é simplesmente uma criatura que se afastou da sua verdadeira felicidade e agora procura estragar a felicidade das criaturas humanas."

Além disso, no Cristianismo, o mal não é considerado uma substância em si mesma, mas sim uma ausência ou desvio do bem. Essa visão, influenciada pelo pensamento de Santo Agostinho, destaca que o mal não tem uma existência independente; em vez disso, é uma privação da bondade divina. A dualidade entre Deus e Satanás representa uma luta entre o bem e o mal, onde o mal é uma provação do bem, uma escolha contrária à vontade de Deus.

Jones destaca que a tradição judaico-cristã sobre anjos é muito mais antiga que a zoroastriana, além de também ser muito diferente. Comentando Gênesis 18, ele diz:

Quem são estas três figuras que emergem do calor cintilante para visitar o velho que descansa à sombra de um antigo carvalho? Eles são anjos, e o velho é Abraão. Esta é uma das primeiras menções de anjos numa das primeiras partes das Escrituras Hebraicas. Na sua forma escrita atual, esta passagem tem talvez cerca de três mil anos, mas a história em si é certamente mais antiga, parte de um ciclo de histórias sobre Abraão, Isaque e Jacó, que teria sido transmitida oralmente, parte da história de o povo judeu. (...) A história da hospitalidade de Abraão pertence à vertente mais antiga da tradição religiosa que fala de anjos"

Por fim, na mitologia persa, a dualidade entre Ahura Mazda e Angra Mainyu não implica que Angra Mainyu seja um opositor ativo de Ahura Mazda, como é retratado Satanás em relação a Deus no Cristianismo. Em vez disso, eles representam princípios opostos do cosmos, coexistindo em uma dualidade filosófica. Portanto, a natureza da oposição e a relação com a divindade suprema são notavelmente diferentes entre as duas tradições religiosas.

O Cristianismo não é uma tradição religiosa dualista, em contraste com algumas outras crenças, como o Zoroastrismo persa, que adotam um dualismo explícito. O dualismo implica que há duas forças supremas e opostas que compartilham poder igual na criação e no controle do universo. No entanto, no Cristianismo, essa dualidade não existe.

Em resumo, o Cristianismo não é dualista, pois reconhece Deus como a única divindade suprema e não atribui a Satanás um poder ou autoridade igual ao de Deus, tornando-o uma criatura criada e limitada em oposição a uma divindade suprema e eterna. Portanto a ideia defendida por Kardec não tem fundamento.

Erickson, ao comentar sobre essa teoria de que a figura de Satanás tem origem na mitologia persa, faz um diagnóstico preciso: "Apesar dessa ideia ser superficialmente atraente, ela tem um defeito grave ao não levar em conta que o ponto de vista cristão não contém nada do dualismo que tantas vezes está no pensamento persa."

A conclusão de Jones é igualmente precisa:

"Existem alguns paralelos aqui, mas precisamos lembrar que o Judaísmo e o Zoroastrismo são religiões muito diferentes.

(...)

Os paralelos são também complicados pelo facto de, sob a influência dos missionários cristãos no século XIX, a moderna doutrina zoroastriana ter sido apresentada de uma forma mais próxima do ensinamento judaico e cristão sobre os anjos. Por exemplo, o símbolo moderno mais comum do Zoroastrismo, uma figura humana alada (denominada faravahar porque supostamente representa um fravashi), é, em alguns aspectos, uma invenção moderna"

Ele chega a dizer que talvez seja melhor não usar a palavra "anjo" para os seres do Zoroastrismo:

"Talvez seja melhor não usar a palavra “anjo” para designar as criaturas espirituais do Zoroastrismo ou do Hinduísmo. Traçar paralelos entre anjos e fravashis, amesha gastadas, devas ou mahadevas, tem mais probabilidade de nos confundir do que de nos esclarecer. Esses espíritos zoroastristas e hindus não desempenham o mesmo papel no Zoroastrismo ou no Hinduísmo que os anjos desempenham no Judaísmo, no Cristianismo e no Islã. A palavra “anjo” e as imagens, ideias e histórias contemporâneas sobre anjos chegaram até nós a partir de uma tradição que começa com Abraão. Este livro é sobre esses seres. As crenças hindus e zoroastristas merecem livros próprios"


Parte segunda: argumentos contra a doutrina dos demônios

Na segunda parte do capítulo, Kardec apresenta seus argumentos contra a concepção cristã dos demônios. Esses argumentos, como veremos, carecem de uma lógica sólida e frequentemente tem como alvo espantalhos da verdadeira visão cristã.

Lendo o capítulo, identifiquei doze alegações de Kardec que irão discutir agora.

 • Alegação 1: 

Kardec afirma: "Satanás existe de toda a eternidade, como Deus, ou ser-lhe-á posterior? Existindo de toda a eternidade é incriado, e, por consequência, igual a Deus. Este Deus, por sua vez deixará de ser único, pois haverá um deus do mal. Mas se lhe for posterior? Neste caso passa a ser uma criatura de Deus. Como tal, só praticando o mal por incapaz de fazer o bem e tampouco de arrepender-se, Deus teria criado um ser votado exclusiva e eternamente ao mal. Não sendo o mal obra de Deus, seria contudo de uma das suas criaturas, e nem por isso deixava Deus de ser o autor, deixando igualmente de ser profundamente bom. (...)

Tal foi, por muito tempo, a crença neste sentido."

Essa afirmação é equivocada. Na doutrina cristã tradicional, Deus criou os anjos, incluindo Satanás, como seres bons e com livre arbítrio. A maldade de Satanás surgiu de sua escolha de se rebelar contra Deus. Portanto, não se pode atribuir a criação direta de Satanás como um ser maligno a Deus, mas sim à escolha de Satanás de se afastar do bem. Essa sempre foi a visão cristã. Cristãos nunca ensinaram que Deus criou um ser maligno. Kardec não apresenta uma única evidência para sua afirmação. Essa afirmação é infundada e há várias evidências contra ela. Por exemplo, Agostinho, em sua época, já dizia o seguinte:

"Considerando que estas coisas são assim, esses espíritos que chamamos anjos nunca foram em qualquer época ou de qualquer forma trevas, mas, assim que foram feitos, foram feitos luz. Contudo, eles não foram criados assim para que existissem e vivessem seja de que forma fosse, mas foram iluminados para que vivessem sábia e abençoadamente. Alguns deles, tendo se afastado desta luz, não ganharam esta vida sábia e bendita, que é certamente eterna e acompanhada com a confiança firme da sua eternidade. Mas eles ainda têm a vida da razão, embora obscurecida com a loucura, e isto eles não podem perder mesmo que queiram"

 • Alegação 2:

"Se Satã e os demônios eram anjos, eles eram perfeitos; como, sendo perfeitos, puderam falir a ponto de desconhecer a autoridade desse Deus, em cuja presença se encontravam? Ainda se tivessem logrado uma tal eminência gradualmente, depois de haver percorrido a escala da perfeição, poderíamos conceber um triste retrocesso; não, porém, do modo por que no-los apresentam, isto é, perfeitos de origem."

A questão de como demônios, originalmente perfeitos, poderiam cair é abordada por teólogos como Norman Geisler e Augustus Hopkins Strong. Eles argumentam que a queda dos anjos se deu devido ao livre-arbítrio concedido por Deus. Embora tenham sido criados perfeitos, a capacidade de escolher o mal acompanha a liberdade. Geisler diz que "Deus fez as criaturas perfeitas e lhes deu natureza perfeita e liberdade perfeita. Mas com a liberdade, embora boa em si mesma, vem a capacidade para pecar. Portanto, o pecado surgiu no peito de um arcanjo na presença de Deus."

Kardec também dá a entender que o conhecimento moral dos anjos seria um impedimento ao pecado e à queda, no entanto esse argumento não se sustenta. Conforme explica Strong, "nenhuma soma do simples conhecimento garante a ação moral correta. Se os homens gratificam a presente paixão, apesar de seu conhecimento de que o pecado envolve a miséria presente e a perdição futura, não é impossível que Satanás possa ter feito o mesmo." Portanto, a queda dos anjos não implica uma falha na criação divina, mas sim na escolha deles.

 • Alegação 3:

"Pois que nem a Igreja e nem os sagrados anais explicam a causa da rebelião dos anjos para com Deus e apenas dão como problemática (quase certa) a relutância no reconhecimento da futura missão do Cristo

(...) Se a Igreja e a História se calam, se a coisa apenas parece certa, claro, não passa de hipótese, e a cena descritiva é mero fruto da imaginação."

Se Kardec estava querendo dizer que a falta de mais informações prova que a queda dos demônios, é fruto da imaginação, trata-se de um argumento infundado. A falta de uma explicação detalhada na Bíblia sobre a causa da rebelião dos anjos não invalida a crença em sua existência. A Bíblia fornece informações suficientes para sustentar a doutrina da queda dos anjos rebeldes. A ausência de detalhes adicionais sobre esse evento específico não significa que ele seja fruto da imaginação, mas que Deus não revelou todos os pormenores.

Se ele apenas quis dizer que as falas atribuídas a Satanás sobre subir a acima das nuvens não tem nenhum fundamento, eu concordaria, mas isso não contribui em nada para minar o fato de que Deus criou muitos anjos que depois caíram.

 • Alegação 4:

"As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância admirável num arcanjo que, por sua natureza e grau atingido, não deve participar, quanto à organização do universo, dos erros e dos prejuízos que os homens têm professado, até serem pela Ciência esclarecidos. Como poderia, então, dizer que fixaria residência acima dos astros, dominando as mais elevadas nuvens?!"

Kardec questiona a suposta fala de Satanás sobre elevar-se acima das nuvens, que é uma linguagem poética e simbólica usada na Bíblia. O Livro de Isaías, por exemplo, usa esse tipo de linguagem para descrever a queda de um rei humano, não a afirmação científica de Satanás. A crítica de Kardec à suposta ignorância de Satanás nesse contexto não se sustenta, pois a passagem não tem a intenção de ser uma descrição científica.

Aliás, o próprio Kardec contradiz a ciência ao falar no mesmo parágrafo em um "infinito espaço". Cientificamente, o universo é um espaço finito e em expansão.

 • Alegação 5:

"Do que precede se infere que os anjos decaídos pertenciam a uma categoria menos elevada e perfeita, não tendo atingido ainda o lugar supremo em que o erro é impossível. Pois seja, mas, então, há manifesta contradição nesta afirmativa: Deus em tudo os tinha criado semelhantes aos espíritos sublimes que, subdivididos em todas as ordens e adstritos a todas as classes, tinham o mesmo fim e idênticos destinos, e que seu chefe era o mais belo dos arcanjos."

Kardec alega que os demônios habitam um céu inferior e que, por isso, foram criados inferiores aos anjos bons. No entanto, a doutrina cristã afirma que todos os anjos foram criados com a capacidade de escolher pecar, uma vez que possuem livre arbítrio. A crença de que Deus criou anjos habitando céus diferentes não tem nenhuma base no ensino cristão, nem mesmo no texto citado por Kardec, que diz apenas: 

“A escritura e a tradição denominam Céu o lugar no qual se haviam colocado os anjos, no momento da sua criação. Mas esse não era o Céu dos céus, o Céu da visão beatífica, onde Deus se mostra de face aos seus eleitos, que o contemplam claramente e sem esforço, porque aí não há mais possibilidade nem perigo de pecado; a tentação e a dúvida são aí desconhecidas; a justiça, a paz e a alegria reinam imutáveis, a santidade e a glória imperecíveis. Era, portanto, outra região celeste, uma esfera luminosa e afortunada, essa em que permaneciam tão nobres criaturas favorecidas pelas divinas comunicações, que deveriam receber com fé e humildade até serem admitidas no conhecimento da sua realidade — essência do próprio Deus.”

O texto em nenhum lugar diz que Deus colocou anjos em céus diferentes, mas diz que os anjos em sua criação foram colocados em único lugar que a "escritura e a tradição denominam Céu", embora não seja o Céu dos Céus; não diz que Deus colocou anjos também neste último desde o momento de sua criação.

Muitos anjos escolheram permanecer fiéis a Deus, enquanto outros, como Lúcifer, optaram pela rebelião. Portanto, a inferioridade não está na criação, mas na escolha.

 • Alegação 6: 

"(...) o Deus onisciente sabia que alguns dentre esses anjos viriam a falir, arcando com a eterna condenação e arrastando a igual sorte uma parte da humanidade. E assim, de caso pensado, previamente condenava o gênero humano, a sua própria criação. Deste raciocínio não há fugir, porquanto de outro modo teríamos que admitir a inconsciência divina, apregoando a não presciência de Deus. Para nós é impossível identificar uma tal criação com a soberana bondade. Em ambos os casos vemos a negação de atributos, sem a plenitude absoluta dos quais Deus não seria Deus."

Kardec argumenta que o fato de Deus ter criado aqueles espíritos angélicos que ele sabia que cairiam e fariam o mal contradiz os atributos de Deus. Porém, se esse fosse o caso, a criação por Deus de pessoas que ele sabia que fariam o mal (ex. Hitler) também iria contradizer o caráter de Deus. Como diz Strong, "a sedução do puro pelo impuro, a chantagem, a escravização e a guerra, tudo isso tem sido permitido entre os homens. Não é mais inconsistente com a benevolência de Deus permiti-los entre os espiritos angélicos."

Além disso, Kardec parece atribuir a condenação de algumas pessoas à queda desses anjos, no entanto as pessoas pecaram e caíram por sua própria escolha. A responsabilidade é delas. Satanás apenas as tentou, mas não tinha poder para as compelir ao pecado.

 • Alegação 7:

"A inutilidade do arrependimento e a impossibilidade de regeneração, isso sim, importaria na negação da divina bondade."

Kardec sugere que a inutilidade do arrependimento dos demônios é incompatível com a bondade divina. No entanto, essa é uma deturpação do ensino cristão. A doutrina cristã sustenta que os demônios, devido à sua escolha contínua de rebelião e maldade, não buscam o arrependimento. Sua natureza foi corrompida de tal forma que não desejam a redenção, e, portanto, a inutilidade do arrependimento é uma consequência de suas próprias ações.

 • Alegação 8:

"Por esta doutrina, apenas uma parte dos demônios está no inferno; a outra vaga em liberdade, envolvendo-se em tudo que aqui se passa, dando-se ao prazer de praticar o mal e isso até o fim do mundo, cuja época indeterminada não chegará tão cedo, provavelmente. Mas por que uma tal distinção? Serão estes menos culpados? Certo que não (...)"

Kardec questiona a suposta distinção injusta entre demônios livres e presos. A falta de conhecimento sobre essa os motivos para essa distinção não implica que tais razões não existem, mas apenas que Deus não as quis revelar. Kardec utiliza um argumento da ignorância, o que constitui falácia lógica.

Além disso, há outras interpretações na tradição cristã, além dessa de que já há muitos anjos presos. Geisler e Erickson apresentam duas teorias alternativas sobre a condição dos anjos caídos. A primeira teoria sugere que os versículos de 2 Pedro 2:4 e Judas 6 podem estar falando do destino final dos anjos caídos, que já foram sentenciados por Deus, mas ainda não começaram a cumprir sua pena. Eles estão cientes de que o dia de seu julgamento está chegando. A segunda teoria considera que todos os demônios, não apenas alguns, estão na condição descrita nas passagens, e essas descrições refletem a situação de todos os anjos caídos. Essas teorias alternativas levam em conta a possibilidade de que a prisão e a liberdade dos demônios não sejam necessariamente mutuamente exclusivas, mas refletem a complexidade da condição dos anjos caídos.

 • Alegação 9:

"Suas ocupações consistem, pois, em martirizar as almas que seduziram. Assim, não se encarregam de punir faltas livre e voluntariamente cometidas, porém as que eles próprios provocaram. São ao mesmo tempo a causa do erro e o instrumento do castigo; e, coisa singular, que a justiça humana por imperfeita não admitiria — a vítima que sucumbe por fraqueza, em contingências alheias e porventura superiores à sua vontade, é tanto ou mais severamente punida do que o agente provocador que emprega astúcia e artifício, visto como essa vítima, deixando a Terra, vai para o inferno sofrer sem tréguas, nem favor, eternamente, enquanto o causador da sua primeira falta, o agente provocador, goza de uma tal ou qual dilação e liberdade até o fim do mundo."

Kardec alega que as pessoas que pecaram sofreriam mais do que os demônios, o que seria injusto. A doutrina cristã ensina que as punições no inferno são proporcionais à conduta de cada indivíduo, não uma punição uniforme. Satanás tenta o homem, mas este peca por sua própria vontade e é responsável por suas ações.

Além disso, a ideia de que demônios torturam pessoas no inferno não é uma crença presente nas Escrituras.

 • Alegação 10:

"Deus podia ignorar, no entanto, o abuso que fariam de uma liberdade por Ele mesmo concedida? Então, por que a concedeu? Mas nesse caso é com conhecimento de causa que Deus abandona suas criaturas à mercê delas mesmas, sabendo, pela sua onisciência, que vão sucumbir, tendo a sorte dos demônios. Não serão elas de si mesmas bastante fracas para falirem, sem a provocação de um inimigo tanto mais perigoso quanto invisível?"

Kardec questiona por que Deus permite que os demônios levem pessoas ao inferno. Ao fazer isso, ele deturpa o ensino cristão, dando a entender que uma pessoa condenada ao inferno pode se arrepender, mas que Deus não leva em conta esse arrependimento. Ele diz: "arrependimento, regeneração, lamentos, tudo supérfluo". Na crença cristã, as pessoas condenadas ao inferno o são por escolha própria e porque não se arrependeram. Uma vez no inferno, a rejeição do arrependimento é uma característica de sua escolha contínua de rebelião. Não há pessoas arrependidas no inferno.

 • Alegação 11:

"Donde provém essa impossibilidade? Não se compreende que ela seja a consequência de sua similitude com o homem depois da morte, proposição que, ademais, é muito ambígua.

Acaso provirá da própria vontade dos demônios? Porventura da vontade divina? No primeiro caso a pertinácia denota uma extrema perversidade, um endurecimento absoluto no mal, e nem mesmo se compreende que seres tão profundamente perversos pudessem jamais ter sido anjos de virtude, conservando por tempo indefinido, na convivência destes, todos os traços da sua péssima índole e natureza.

No segundo caso, ainda menos se compreende que Deus inflija como castigo a impossibilidade da reparação, após uma primeira falta. O Evangelho nada diz que com isso se pareça."

Kardec questiona a reabilitação dos demônios, mas as soluções propostas por Geisler não sustentam a ideia de que Deus não é bom ou que os demônios nunca foram bons. A doutrina cristã ensina que os demônios, devido à sua escolha contínua de rebelião, não buscam o arrependimento e estão comprometidos com o mal.

Geisler apresenta quatro razões fundamentais pelas quais não há possibilidade de redenção para os anjos caídos. Primeiro, ele destaca que a Bíblia enfatiza que Cristo veio para redimir a humanidade, não os anjos, sugerindo uma clara distinção entre as duas categorias. Segundo, ele argumenta que a cruz de Cristo é declarada como a fonte da salvação para os seres humanos e, ao mesmo tempo, como a fonte da condenação dos demônios. Terceiro, Geisler aponta que a Bíblia descreve o estado perdido dos demônios como final e eterno, enfatizando que eles estão reservados para o juízo final. Por último, ele menciona a argumentação de Tomás de Aquino, que enfatiza a imutabilidade dos anjos em seu conhecimento natural e natureza, tornando a redenção impossível, uma vez que a redenção envolveria uma mudança de mente. Essas razões convergem para uma visão amplamente aceita de que os anjos caídos não têm a possibilidade de redenção. O argumento de Kardec de que essa corrupção na natureza deles implica que nunca foram realmente bons não tem qualquer fundamento e a conclusão não segue das premissas (falácia non sequitur).

 • Alegação 12:

"E de que lhes serviria não manterem tal orgulho, uma vez que é inútil todo o arrependimento? O bem só poderia interessá-los se eles tivessem uma esperança de reabilitação, fosse qual fosse o seu preço. Assim não acontece, no entanto, e pois se perseveram no mal é porque lhes trancaram a porta da esperança."

Kardec repete a alegação de inutilidade do arrependimento dos demônios. Essa alegação é semelhante à alegação 7 e também deturpa a doutrina cristã, uma vez que os demônios, devido à sua natureza corrompida, não desejam o arrependimento. Portanto, não se trata de inutilidade, mas de escolha.


Parte terceira: demônios na concepção espírita

Na terceira parte, após apresentar esses argumentos defeituosos e tomar, com base neles, a questão por fechada contra a visão cristã, Kardec apresenta sua própria concepção sobre os demônios

Vamos analisá-la a partir de agora:

No Espiritismo, segundo Kardec, não existem entidades distintas como anjos ou demônios. Todos os seres inteligentes fazem parte de uma única criação divina, destinados à busca da perfeição e felicidade. Deus não lhes concedeu perfeição imediata, mas a oportunidade de alcançá-la através do próprio esforço. Os seres progridem encarnados ou no estado espiritual, atingindo o status de puros Espíritos ou "anjos" após o apogeu de seu desenvolvimento. A escala de progresso espiritual abrange desde a ignorância até o conhecimento, da maldade à bondade.

Diz Kardec:

"Em todos os graus existe, portanto, ignorância e saber, bondade e maldade. Nas classes inferiores destacam-se Espíritos ainda profundamente propensos ao mal e comprazendo-se com o mal. A estes pode-se denominar demônios, pois são capazes de todos os malefícios aos ditos atribuídos. O Espiritismo não lhes dá tal nome por se prender ele à ideia de uma criação distinta do gênero humano, como seres de natureza essencialmente perversa, votados ao mal eternamente e incapazes de qualquer progresso para o bem."

A afirmação de Allan Kardec de que existem espíritos propensos ao mal e que podem ser denominados "demônios" no contexto do Espiritismo parece entrar em contradição com sua crítica à doutrina dos demônios no Cristianismo. Inicialmente, ele argumenta que Deus, sendo bom, não criaria criaturas más. No entanto, no Espiritismo, Kardec sugere que há espíritos ignorantes e maus desde o início, de modo que Deus os criou desse jeito, o que parece ser uma contradição.

Deus, na visão cristã, criou originalmente seres bons que depois caíram por sua própria escolha. No entanto, no Espiritismo, ele efetivamente cria espíritos que já são maus e propensos ao mal, o que pode ser visto como uma contradição em relação à sua crítica ao Cristianismo. Nessa concepção, os demônios não foram anjos bons que caíram pelo mau uso do livre arbítrio, mas já foram criados maus por Deus. Deste modo, sua crítica ao Cristianismo se aplica melhor à própria doutrina espírita do que à visão cristã.

A distinção que Kardec tenta fazer entre esses espíritos e os demônios cristãos, alegando que eles podem evoluir e progredir para o bem, é problemática. Se esses espíritos são capazes de "todos os malefícios aos ditos atribuídos [aos demônios]", isso coloca em dúvida a ideia de que eles são melhores ou têm uma natureza essencialmente diferente dos demônios cristãos. O fato de supostamente poderem evoluir não anula o fato de que, de acordo com a visão espírita, Deus efetivamente cria seres malignos, o que é uma contradição inerente à doutrina espírita.

Ele também diz:

"Segundo o Espiritismo os demônios são Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e que, colocados na base da escala, hão de nela graduar-se. Os que por apatia, negligência, obstinação ou má vontade persistem em ficar, por mais tempo, nas classes inferiores, sofrem as consequências dessa atitude, e o hábito do mal dificulta-lhes a regeneração. Chega-lhes, porém, um dia a fadiga dessa vida penosa e das suas respectivas consequências; eles comparam a sua situação à dos bons Espíritos e compreendem que o seu interesse está no bem, procurando então melhorarem-se, mas por ato de espontânea vontade, sem que haja nisso o mínimo constrangimento. Submetidos à lei geral do progresso, em virtude da sua aptidão para o mesmo, não progridem, ainda assim, contra a vontade. Se o progresso fosse obrigatório não haveria mérito, e Deus quer que todos tenhamos o mérito de nossas obras. Ninguém é colocado em primeiro lugar por privilégio, mas o primeiro lugar a todos é franqueado à custa do esforço próprio "

A visão de Kardec sobre os demônios como Espíritos imperfeitos, suscetíveis de regeneração e sujeitos a um processo de evolução espiritual, reflete o contexto histórico e intelectual em que ele viveu, marcado pelo positivismo e pela crença no progresso. No entanto, essa visão levanta algumas questões críticas, e o próprio contexto do positivismo influenciou essa perspectiva.

O positivismo, uma corrente filosófica popular no século XIX, enfatizou o progresso, a ciência e a razão como motores do avanço da humanidade. O Espiritismo de Kardec, nascido nesse ambiente, incorporou elementos dessa visão, especialmente a ideia de progresso espiritual e moral como resultado do livre-arbítrio e do esforço pessoal. No entanto, o positivismo caiu grandemente em descrédito devido à sua visão simplista do progresso e à falta de fundamentação empírica sólida.

Críticos do positivismo argumentaram que sua visão do progresso era excessivamente otimista e desconsiderava as complexidades da sociedade e da natureza humana. Além disso, o Espiritismo de Kardec, com sua ênfase na evolução espiritual, compartilhava algumas dessas falhas, uma vez que a ideia de que Espíritos imperfeitos podem evoluir voluntariamente carece de evidências sólidas e não leva em consideração as barreiras reais para a mudança pessoal.

A rejeição do positivismo e suas ideias simplistas sobre o progresso contribuíram para a crítica do Espiritismo como uma doutrina baseada em suposições não comprovadas. A falta de comprovação empírica da reencarnação e da evolução espiritual enfraquece as alegações do Espiritismo e o torna suscetível a críticas. Portanto, é importante considerar essas questões críticas ao avaliar a visão espírita do "progresso" e da evolução espiritual à luz do contexto do positivismo em declínio.

Outro grande problema está na afirmação de Allan Kardec de que o progresso espiritual não é obrigatório e que Deus deseja que todos tenham mérito por suas ações, que é confrontada por uma contradição intrínseca à doutrina espírita. Isso ocorre porque o Espiritismo também ensina a existência de reencarnações compulsórias para Espíritos atrasados, que não têm a capacidade de fazer escolhas conscientes. Na Revista Espírita de novembro de 1862, é dito o seguinte:

"Observação – Eis um Espírito que, em razão de sua leviandade e pouco adiantamento, não suspeita da reencarnação. Quando lhe chegar o momento de retomar uma nova existência, que escolha poderá fazer? Evidentemente uma escolha em conformidade com seu caráter e com seus hábitos, a fim de gozar e não de expiar, até que seu Espírito se ache bastante desenvolvido para lhe compreender as conseqüências. É a história do garoto inexperiente, que se atira aturdidamente a todas as aventuras e que adquire experiência às próprias custas. Lembremos que, para os Espíritos atrasados, incapazes de fazer uma escolha com conhecimento de causa, há encarnações compulsórias." (o grifo é meu)

Na Revista Espírita de Junho de 1863, é dito o seguinte:

"A encarnação é, pois, uma necessidade para o Espírito que, realizando a sua missão providencial, trabalha seu próprio adiantamento pela atividade e pela inteligência, que deve desenvolver, a fim de prover à sua vida e ao seu bem-estar. Mas a encarnação torna-se uma punição quando o Espírito, não tendo feito o que devia, é constrangido a recomeçar sua tarefa, multiplicando penosas existências corporais por sua própria culpa. Um estudante não é graduado senão depois de ter passado por todas as classes." (o grifo é meu)

Essa contradição é problemática, pois, se as reencarnações compulsórias são uma realidade, então a afirmação de que o progresso espiritual é um ato de "espontânea vontade" e que todos têm a oportunidade de aceitar ou recusar os meios para progredir perde sua validade. Se alguns Espíritos são forçados a reencarnar sem escolha consciente, isso contradiz a ideia de que Deus quer que todos tenham mérito por suas ações, uma vez que alguns Espíritos parecem estar presos em um ciclo de reencarnações sem liberdade de escolha.

Além disso, a ideia de que Deus fornece constantemente os meios para o progresso, mas com a faculdade de aceitá-los ou recusá-los, também é questionável quando se considera a existência de reencarnações compulsórias. Se o progresso espiritual é realmente uma questão de mérito e livre-arbítrio, a presença de reencarnações compulsórias parece ser uma intervenção que contradiz essa premissa.

Portanto, a contradição entre a afirmação de que o progresso não é obrigatório e a crença nas reencarnações compulsórias destaca a falta de consistência na doutrina espírita. Essa inconsistência levanta questões importantes sobre a coesão e a validade das crenças espíritas.

Kardec conclui:

"Por fim, a unidade da Criação, aliada à ideia de uma origem comum, tendo o mesmo ponto de partida e trajetória, elevando-se pelo próprio mérito, corresponde melhor à Justiça de Deus do que a criação de espécies diferentes, mais ou menos favorecidas de dotes naturais, que seriam outros tantos privilégios."

O argumento de Kardec de que a unidade da Criação, onde anjos e seres humanos são estágios diferentes dos mesmos espíritos, é mais justo do que a criação de espécies diferentes com privilégios, é problemático quando examinado mais profundamente. Embora Kardec defenda a justiça divina, seu raciocínio pode levar a conclusões absurdas e contraditórias.

Primeiramente, a ideia de que Deus não deveria criar espécies diferentes com dotes naturais diversos com base em mérito ou justiça humana é problemática. Deus, sendo uma entidade onisciente e transcendental, pode ter razões e critérios para a diversidade de criação que estão além da nossa compreensão. A natureza e os propósitos divinos podem ser muito mais complexos do que podemos conceber. Portanto, afirmar que a criação de seres diferentes é injusta baseando-se apenas em nosso entendimento limitado pode ser uma simplificação excessiva.

Além disso, o próprio exemplo de Deus criando seres humanos racionais e animais irracionais contradiz o argumento de Kardec. Se seguirmos a lógica de que a criação de seres diferentes com dotes naturais diversos é injusta, então a própria existência, por exemplo, de seres humanos racionais em oposição a animais irracionais seria considerada uma arbitrariedade divina. Isso mostra como o raciocínio de Kardec pode levar a conclusões absurdas.

Quanto à possível objeção que um espírita pode levantar de que a reencarnação não acontece em animais, isso não resolve o problema, mas o amplia. Se, segundo a lógica de Kardec, a reencarnação é uma forma justa de evolução espiritual, seria mais uma injustiça divina restringir essa oportunidade apenas à espécie humana. O argumento de Kardec, portanto, cria um dilema ao tentar estabelecer critérios de justiça divina com base em nosso entendimento limitado e subjetivo. Em vez de resolver questões de justiça, ele gera contradições e absurdos na lógica da argumentação espírita.

"A doutrina vulgar sobre a natureza dos anjos, dos demônios e das almas, não admitindo a lei do progresso, mas vendo todavia seres de diversos graus, concluiu que seriam produto de outras tantas criações especiais. E assim foi que chegou a fazer de Deus um pai parcial, tudo concedendo a alguns de seus filhos, e a outros impondo o mais rude trabalho. Não admira que por muito tempo os homens achassem justificação para tais preferências, quando eles próprios delas usavam em relação aos filhos, estabelecendo direitos de primogenitura e outros privilégios de nascimento. Podiam tais homens acreditar que andavam mais errados que Deus?"

O trecho de Kardec, ao criticar a doutrina tradicional sobre anjos, demônios e almas, alegando que ela implica em Deus sendo parcial e concedendo privilégios a alguns de seus "filhos", é problemático por diversas razões.

Primeiramente, essa lógica continua levando a conclusões absurdas, como já discutido anteriormente. Ao tentar aplicar critérios humanos limitados à natureza divina, Kardec não leva em consideração a complexidade dos propósitos divinos, criando assim um dilema de arbitrariedade divina.

Além disso, Kardec deturpa a doutrina cristã ao sugerir que demônios são "filhos de Deus" na doutrina cristã. Na verdade, a teologia cristã ensina que nem todos são filhos de Deus no mesmo sentido espiritual. O Novo Testamento faz distinção entre aqueles que escolhem seguir a vontade de Deus e aceitar Jesus Cristo como seu Salvador e aqueles que se afastam de Deus. Isso é evidenciado em versículos como João 1:12, que afirma: "Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus". Portanto, a ideia de que demônios são "filhos de Deus" na doutrina cristã é equivocada.

Kardec sugere que a doutrina cristã justificaria a preferência e a primogenitura. No entanto, a doutrina cristã não endossa tais práticas humanas. O cristianismo ensina princípios de igualdade e amor ao próximo, não discriminação com base em privilégios de nascimento. Além disso, essas práticas são muito anteriores ao advento do Cristianismo.

Em resumo, mais uma vez, o trecho de Kardec se baseia em uma interpretação deturpada da doutrina cristã e em uma lógica que leva a conclusões absurdas. Sua tentativa de criticar a teologia tradicional cria uma visão distorcida e não fundamentada das crenças religiosas, que carece de consistência e validade.


Conclusão

A análise crítica das alegações de Allan Kardec no contexto do Espiritismo revela sérias contradições e falta de fundamentação nas premissas espíritas. À luz de uma visão de mundo cristã e da lógica, as alegações espíritas apresentam problemas substanciais.

Kardec questiona a justiça divina e a natureza dos demônios, mas suas próprias respostas à questão não se sustentam. Além disso, a tentativa de Kardec de reinterpretar a natureza dos demônios em oposição ao Cristianismo tradicional carece de consistência e validade.

Em resumo, o Espiritismo levanta questões profundas e sérias contradições, que lançam dúvidas substanciais sobre a validade e a coerência de suas alegações. A visão de mundo cristã não se alinha com as doutrinas espíritas, e essas divergências destacam as deficiências fundamentais nas crenças do Espiritismo. Portanto, à luz dessa análise crítica, é legítimo concluir que as alegações espíritas são problemáticas, inconsistentes e não encontram sustentação na visão de mundo cristã. Podemos concluir que a tentativa de Kardec de mostrar que a visão cristã é inconsistente e de apresentar uma visão alternativa consistente fracassou.


Referências 

BIANCHI, Ugo; STEFON, Matt. Dualism | Definition, Religion, Examples, Significance, & Facts. Britannica.com, (em inglês). Disponível em: https://www.britannica.com. Acesso em: 28 out. 2023.

ERICKSON, Millard J. Teologia sistemática. Vida Nova, 2015.

GEISLER, Norman. Teologia sistematica. Td. Marcelo Gonçalves e Luís, 2010.

GEISLER, Norman; HOWE, Thomas. Manual popular de dúvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia. São Paulo: Mundo Cristão, 1999.

JONES, David Albert. Angels: a very short introduction. Oxford University Press, 2010.

STRONG, Augustus Hopkins. Teologia sistemática: a doutrina de Deus. Hagnos, 2003.


Os textos espíritas foram extraídos de:

KARDEC, Allan. O céu e o inferno, ou, a justiça divina segundo o espiritismo, tradução de Manuel Justiniano Quintão [PDF]. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1862, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

KARDEC, Allan. Revista Espírita de 1863, tradução de Evandro Noleto Bezerra [PDF] – Brasília: FEB, 2004.

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